Uma tese sobre o bolsonarismo
Em algumas sociedades indígenas que sofreram forte ruptura na sua estratégia de vida – dada pela invasão de estruturas políticas externas ou catástrofes climáticas – há registros sobre a fragmentação da estrutura hierárquica montada a partir do xamanismo. Xamãs ou pagés que assumiam um papel central na relação entre o mundo da natureza e o mundo espiritual deram lugar a uma estrutura pulverizada de anciãs que passaram a assumir parte deste papel, muitas delas, interpretando sonhos.
O nome técnico para esta nova estrutura é heterarquia, uma organização mais ramificada marcada por muitas lideranças que não assumem exatamente um papel de autoridade, embora sejam respeitadas pela sua diferença.
Algumas estruturas heterárquicas se conformam em redes e as múltiplas lideranças assumem um papel de hubs (ou roteadores, se preferirem), agregando pequenos núcleos ao seu redor. Essas lideranças pontuais atomizadas acabam se posicionando num lugar de semi-igualdade no seu núcleo mais íntimo: na maior parte do tempo, dividem tarefas como qualquer membro deste núcleo, mas, em algumas ocasiões, assumem seu poder extraordinário e revelam suas visões e interpretações de sonhos.
A hipótese que quero apresentar é que o bolsonarismo, devido ao momento sem uma liderança e estrutura hierárquica nítida, vive uma transição que conforma esta lógica heterárquica. Há núcleos liderados por personalidades políticas fortes que não se conectam em uma rede nítida, ocorrendo uma tímida competição entre eles.
Os núcleos envolvem personalidades como Nikolas Ferreira, de um lado, e Tarcísio de Freitas, de outro, mas há agrupamentos menos hierarquizados como os blocos parlamentares, alguns influenciadores e, obviamente, a resistência existencial da família Bolsonaro.
Esta divisão, que pode ser momentânea, apresenta o momento mais frágil do bolsonarismo porque abre brechas, dissensos internos e uma polifonia que debela ações unificadas mais potentes.
Por outro lado, como o bolsonarismo se caracteriza pelo “mobilismo permanente”, ou seja, pela excitação da base militante em ações espetaculares que colocam em xeque as instituições e a ordem política, há certa contaminação da institucionalidade brasileira pela heterarquia.
Nos últimos dias, vimos um efeito dominó envolvendo instituições e expoentes de várias instituições nacionais enredados nos vazamentos de documentos sigilosos pela CPMI do INSS, mas também em processos relativos ao Banco Master.
O efeito dominó em curso afeta a credibilidade de autoridades públicas e suas instituições e pulveriza o poder dos centros de comando. No caso do STF, sempre houve uma ou duas lideranças mais proeminentes entre ministros. Neste momento, tal liderança mais centralizada se pulverizou numa polifonia que vai de Alexandre de Moraes a Edson Fachin, passando por Flávio Dino e André Mendonça, para ficar nos mais visíveis nos últimos dias.
O mesmo ocorre no mundo partidário e parlamentar. Não há mais figuras organizadoras como Ulysses Guimarães. Não há estruturas principescas no sistema partidário como foi o duplo comando tucano de FHC e Mário Covas. Lula resiste em sua liderança absoluta no interior do PT, mas todos sabem que sua vida política pública deve declinar na próxima década, o que abre uma temporada de disputas no interior do petismo. No PSOL, as divergências sobre a adesão à federação partidária com o PT dá mostras de abalar a liderança de Ivan Valente, levando de roldão a autoridade de Guilherme Boulos.
Muito desta fragmentação que citei acima não tem relação direta com o bolsonarismo. Contudo, parte das ações desfechadas pelos vários núcleos bolsonaristas atingiram em cheio a imagem de autoridades públicas e a coesão de algumas instituições. Uma dessas ofensivas vem do comando bolsonarista da CPMI do INSS.
Há, portanto, um elemento desagregador que dá sobrevida ao bolsonarismo, mesmo neste período de transição. O que indica, por outro lado, uma certa fragilidade dos atingidos por suas ações ofensivas, daquelas lideranças e organizações que não conseguem responder à altura.
Uma das explicações é que a ordem social brasileira é tão desigual que a legitimação das instituições pelas camadas populares sempre merece menos adesão e mais desconfiança. Nossas autoridades e instituições são vistas como canais de trocas entre elites. As camadas populares se sentem excluídas desses clubes que tomam decisões sobre suas vidas. Há estudos a respeito desde a década de 1980, quando uma nova institucionalidade pública estava sendo construída sobre os escombros da ditadura militar.
Se sempre foram parcamente legitimadas, as instituições e autoridades públicas encontram poucas escoras políticas e sociais quando atacadas, colocando em dúvida sua lisura administrativa. Uma carona em avião particular reforça a ideia de acordos entre elites. Favores que o trabalhador uberizado ou vinculado a aplicativos sabem que nunca terão.
Os acordos de sobrevivência, procurando diminuir o ponto de fervura caem muito mal na sensibilidade popular já marcada pela desconfiança justamente porque reforça a ideia de acertos escusos entre as elites.
Em suma, a saída não está nos acordos pelo alto, mas no aumento de participação e controle da população sobre as instituições públicas.
A tese aqui, contudo, é que a heterarquia passou a ser a estrutura organizativa do bolsonarismo. Por seu turno, esta desmontagem de estruturas mais verticalizadas de tomada de decisão e liderança parece transbordar para grande parte da vida pública nacional.
A sensação que fica é que tudo estaria contaminado e quase nada para em pé. Sintomaticamente, o que para em pé são justamente as instituições policialescas, como a Polícia Federal, que não raro são elogiadas por jornalistas como se fossem aríetes da vingança e revolta dos que não têm poder.
Uma situação derivada por uma sociedade dual em que o eleitor só aparece de vez em quando para dar sua opinião.