Não usem a paixão para explicar a aceitação e a normalização das aberrações do futebol

19 de setembro de 2022, 15:17

Ao desafiar os racistas espanhóis, Vinícius Júnior já é uma personalidade mundial do esporte, não só por ser craque, mas por ser cidadão acima de controvérsias rasas que envolvem o futebol.

Algumas dessas controvérsias passam pela defesa de condescendências. Por exemplo. Dizem que o futebol, por sobreviver das paixões clubísticas ou regionalistas e nacionalistas, deve relevar irracionalidades.

Um clube com um técnico fascista, por exemplo, deve seguir em frente, porque a paixão por esse técnico e seu histórico de fidelidade ao time anistiam o fascismo do sujeito.

Um bom jogador de extrema direita, com posições explícitas antidemocracia, continuaria sob adoração da torcida por ser excepcional.

E assim os condescendentes vão normalizando anormalidades em nomes de paixões. Insistem que a adoração por um ídolo não pode nunca se submeter a julgamentos alheios a essa paixão.

Não é assim. Nunca foi. Qualquer esporte, como qualquer atividade humana, está submetido às regras das conquistas pela civilização. A presumida paixão não autoriza a submissão a racistas, xenófobos e homófobos.

Se não fosse assim, todas as paixões seriam anistiadas em nome da irracionalidade de quem torce por um time de nazistas? Ou por um clube dominado por dirigentes fascistas? Ou por um time de jogadores praticantes de fundamentalismo religioso?

Vini Júnior foi atacado por um comentarista do futebol espanhol, que determinou, referindo-se às danças do brasileiro na bandeirinha de escanteio depois dos gols: pare com essas macaquices.

Vini reagiu, no jogo de domingo do Real Madrid contra o Atlético, dançando de novo. E fez um vídeo dizendo que não vai parar de dançar.

Poderia ter ficado quieto, para não se desconcentrar e não virar alvo, mas foi à luta. Vini poderia, numa abordagem superficial, ser apresentado como contraponto à alienação de um Neymar.

É mais do que isso. Vinícius iguala-se em bravura a um Lewis Hamilton, o negro que não teme os supremacistas e o poder do dinheiro que circula na Fórmula-1.

A reação de Vinícius, avisando ao fascismo que não irá se dobrar, fortalece a consciência dos que já tombaram por desafiar os poderosos e sabem que estão certos.

O técnico Roger Machado foi um deles. A estrutura reacionária do futebol, incluindo a crônica esportiva bolsonarista, expeliu Roger do Grêmio.

Só não irão mandar Vinícius embora do Real Madrid porque, além de jogar na Seleção, teve o apoio dos colegas, coisa que Roger não teve em Porto Alegre.

As aberrações do futebol só deixarão de existir quando vastos contingentes deixarem de vê-las como parte do esporte, inclusive uma certa esquerda que condena a ‘politização’ das falas de jogadores, treinadores e outros protagonistas desse meio.

Mas não há excesso de politização. Há falta. O excesso é de alienação, resignação e silêncio cúmplice.

O futebol é uma arma poderosa em defesa da tolerância, das liberdades e das diferenças. Mas há quem acha que futebol é apenas um grito de gol.

Ainda bem que Vinícius Júnior, Roger Machado e outros poucos não acham.

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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