Para Ricardo Barros, a Constituição precisa ter mais “deveres”, pois tem muitos “direitos”

Líder de Bolsonaro traduziu o que o chefe pensa da Constituição Cidadã

27 de outubro de 2020, 01:07

As palavras do líder do governo Bolsonaro na Câmara dos Deputados, atacando a Constituição Federal que, na opinião dele, precisa ser mudada por ter muitos direitos e poucos deveres, são muito mais que um achincalhe à nossa Lei maior. Embora não seja surpresa, a julgar pelo nível de quem entra para a atual gestão federal e em torno dela gravite, os conceitos expelidos a respeito da Carta Magna pelo deputado Ricardo Barros (PP-PR) é um atentado à Democracia. E uma heresia por tomar como exemplo o Chile, no momento em que os chilenos, por um plebiscito, enterram sua constituição que vem da ditadura militar de Augusto Pinochet, de execrável memória.

Sem querer ser repetitivo, mas a impressão que se renova é a de que falar bobagens e torna-las prática é uma espécie de pré-requisito para todos os candidatos a um cargo no governo. Seja na sofrível equipe de auxiliares diretos – está bem, não vou declamar os nomes de ministros inacreditáveis, deixa eles pra lá -, seja na entourage que Bolsonaro consegue reunir em torno de si. E olhe que falamos de uma semana que começou fértil, quando o próprio chefe contribuiu para este anedotário sem graça em torno da vacina. Foi o caso do apelo patético para “gastar com a cura”, menos que com a vacina, seja lá o que ele quis dizer com essa patacoada.

Não vale a pena. Igualmente, ficar na cantiga de sempre, falando mal do nosso legislativo. Não muda muito. Não melhora. O nível, ao que parece, é sempre decrescente. Faz lembrar uma figura completamente oposta ao deputado Barros que é o deputado Ulysses Guimarães, justamente o “pai” da Constituição Cidadã que, agora, um parlamentar de menor quilate quer esculhambar. Ulysses, lembremo-nos, quando questionado sobre o baixo nível do Legislativo, em certa época, devolveu, sábio como sempre: “Espere pra ver a próxima legislatura”. Não dá para se ufanar de uma Câmara que já teve Ulysses Guimarães e que hoje sofre à míngua com um Ricardo Barros.

Mas, o problema é o perigo que uma peroração desastrada dessas significa. É o fecho de lata do que pensam da Democracia e do papel social da Constituição o atual presidente da República, seus ministros e sua base de apoio político e parlamentar. Uma base que ganhou musculatura, em poder e em maldade, a partir do contrato de casamento, por interesses, firmado com essa banca de negócios, nem sempre republicanos, chamada de Centrão, agremiação a que pertencem o deputado Barros e o senador Chico Rodrigues, o guapo roraimense que aprecia uma modalidade bem peculiar de poupança, guardando dinheiro na cueca.

A falácia antidemocrática do líder do governo não deve prosperar e já rendeu uma saraivada de críticas. Inclusive de ministros do Supremo Tribunal Federal. O problema é o que se reafirma, em nome do governo a cada barbaridade dessas. O que Bolsonaro pensa de democracia e de tudo aquilo de nobre que a Constituição de 1988 trouxe ao País, é daí pra baixo.

Escrito por:

Jornalista e compositor, com passagem por veículos como o Jornal do Commercio (PE) e as sucursais de O Globo, Jornal do Brasil e Abril/Veja. Teve colunas no JC, onde foi editor de Política e Informática, além de Gerente Executivo do portal do Sistema JC. Foi comentarista político da TV Globo NE e correspondente da Rádio suíça Internacional no Recife. Pelo JC, ganhou 3 Prêmios Esso. Como publicitário e assessor, atuou em diversas campanhas políticas, desde 1982. Foi secretário municipal de Comunicação. Como escritor tem dois livros publicados: "Bodas de Frevo", com a trajetória do grupo musical Quinteto Violado; e "Onde Está Meu Filho?", em coautoria, com a saga da família de Fernando Santa Cruz, preso e desaparecido político desde 1973. Como compositor tem dois CDs autorais e possui gravações em outros 27 CDs, além de um acervo de mais de 360 canções com mais de 40 músicos parceiros.

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