Bolsonaro diz que não pode obrigar ninguém a se vacinar. Foto: Fotos Públicas

Todos precisamos de vacina. Inclusive contra governante irresponsável

2 de setembro de 2020, 22:58

É uma impressão que se renova. Jair Bolsonaro tem por hobbie expelir sandices. Isto acontece quando não se espera que ele consiga dizer tolice maior que a última, mas ele diz. Ou então quando precisa tirar o foco de alguma bronca mais complicada, como a tal pergunta não respondida sobre o porquê de Fabrício Queiroz ter pago R$ 89 mil à primeira-dama. Nesses horas, ela vai e… pimba! Cria um absurdo novo. Como esse de agora, ao negar a importância e a desdenhar da obrigatoriedade da vacina. Isto no momento em que o fracasso retumbante do combate do governo federal ao Novo Corona Vírus joga mais de 4 milhões de infectados e 124 mil mortes de brasileiros nas costas do presidente e de seu Ministério interino da Saúde.

A frase da hora foi dita, pra variar, numa das conversas do presidente com os seus adeptos, no cercadinho do Palácio da Alvorada. Respondendo a uma apoiadora que se identificou como uma profissional de saúde, o “Mito” disse que “ninguém pode obrigar ninguém” a receber a vacina. Normal, para quem prescreve placebos como a hidroxicloroquina para combater a Covid-19 e o faz com o desembaraço dos garotos-propaganda e a desfaçatez dos charlatões. Em ambos os casos, com a irresponsabilidade que marca a intervenções do presidente ao longo da tragédia que mata tanta gente e ele nem nem.

Como uma patacoada dessas faz parte de um projeto de poder, horas depois, a Secretaria de Comunicação saiu-se com uma emenda pior que o soneto. Foi através de uma nota oficial, onde a frase lapidar de Bolsonaro servia de introito para uma pouco convincente profissão de fé na demoracia: “… o governo do Brasil preza pela liberdade dos brasileiros”. Há controvérsias. No dia seguinte, a eloquente Secom falava, em nova nota, dos gastos do governo nas vacinas contra a Covid-19 e voltava a atacar: “Porém, o Brasil é uma democracia, o governo é liberal e seu presidente não é um tirano.” Tá certo.

Atacar as vacinas é algo completamente extemporâneo. Quem sofreu nas mãos dos críticos da vacinação foi Oswaldo Cruz, lá no distante ano de 1904. Hoje, dizer que vacina faz mal, é inadequado ou se trata de uma “tirania médica” é algo tão idiota quanto abrir a boca e soltar que a Terra é plana. Bolsonaro, ao depor contra a obrigatoriedade da vacina, coloca em risco a credibilidade do próprio sistema vacinal, o que seria uma tragédia. “Essa fala pode levar pessoas a não quererem se vacinar, não darem importância à vacinação”, disse na TV o presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia, Ricardo Tostes Gazzinelli, uma das vozes a se levantar contra a bobagem dita pelo presidente da República.

Bolsonaro bateu de frente com o seu próprio governo que condiciona à vacinação a concessão de certos benefícios. E não tem como ser diferente. Nunca foi. Não deve ser diferente. Ser contra as campanhas de vacinação é negar conquistas importantes que a Medicina brasileira já obteve, como é o caso da poliomielite. É desmerecer, até mesmo, a corrida da qual participam vários países, o Brasil incluso, pela vacina que pode dar termo à pandemia que devasta, no momento, uma parte da humanidade. Até os Estados Unidos, país dos sonhos de Bolsonaro e dos seus filhos, não abre mão da vacina e de tudo faz para ser protagonista do seu uso e para começar a vacinação já em novembro deste ano.

No caso de o presidente do Brasil ser o disseminador de uma pérola do negacionismo, a coisa ganha ares de galhofa planetária. Mais uma chance de ouro de sermos expostos à chacota do mundo, a capas vexatórias de jornais dos Estados Unidos e da Europa, a espaço garantido nos programas humorísticos de vários países. Só que não tem graça nenhuma. Pelo contrário, envergonha.

Vacina não é um mal, pelo contrário. Precisamos delas, de todas elas. No sentido figurado, até para corrigir decisões mal tomadas, como uma eleição equivocada de um governante. Nesse caso, a vacina é o voto.

Escrito por:

Jornalista e compositor, com passagem por veículos como o Jornal do Commercio (PE) e as sucursais de O Globo, Jornal do Brasil e Abril/Veja. Teve colunas no JC, onde foi editor de Política e Informática, além de Gerente Executivo do portal do Sistema JC. Foi comentarista político da TV Globo NE e correspondente da Rádio suíça Internacional no Recife. Pelo JC, ganhou 3 Prêmios Esso. Como publicitário e assessor, atuou em diversas campanhas políticas, desde 1982. Foi secretário municipal de Comunicação. Como escritor tem dois livros publicados: "Bodas de Frevo", com a trajetória do grupo musical Quinteto Violado; e "Onde Está Meu Filho?", em coautoria, com a saga da família de Fernando Santa Cruz, preso e desaparecido político desde 1973. Como compositor tem dois CDs autorais e possui gravações em outros 27 CDs, além de um acervo de mais de 360 canções com mais de 40 músicos parceiros.

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