Lisca “Doido” dá show de sensibilidade e sensatez. O contrário do negacionismo do “mito”

Atenção e ouvido ao “Doido”. Impeachment para o “mito”

4 de março de 2021, 10:30

 Um é chamado de “doido” por sua torcida e utiliza o apelido como uma peça positiva de marketing, sob o qual agita a arquibancada, briga, xinga, comemora dançando. Mas, de doido, mesmo, ele não tem nada. É um baita treinador de futebol. O outro não tem nada de engraçado, é chamado de “mito” por seus seguidores fanáticos e violentos, e debaixo do tratamento faz e acontece no que de pior consegue produzir: divide o povo, pratica o ódio, nega a ciência, quer o País armado, vende a Nação aos maus políticos. De mito, porém, ele não é nada. É, sim, uma figura inadequada para a função que ocupa.

As diferenças entre Luiz Carlos Cirne Lima de Lorenzi e Jair Messias Bolsonaro começam por aí e parecem se multiplicar a cada atitude de um e de outro. A começar por um ser do Bem e o outro, do Mal. Um tem-se mostrado com sensibilidade e propriedade para entender o País onde nasceu e vive, paga impostos, trabalha e produz. O outro, o mundo inteiro está vendo quão deslocado está no seu papel de governante e como não entende nada do país que, de forma estranha e lamentável, foi eleito para dirigir.

Esta semana, quando o Brasil mergulhou de cabeça nas trevas da Covid-19, batendo recordes de óbitos praticamente um dia atrás do outro, a caminho das 2 mil mortes diárias, o primeiro, que atende por Lisca e dirige com habilidade e competência o time do América de Minas Gerais, protagonizou um desabafo sincero e oportuno. O alvo foi a classe que dirige o futebol, essa turma para quem o único protocolo viável é continuar a ganhar muito dinheiro. Para esses dirigentes, a CBF à frente, parar o futebol por causa da pandemia está fora de cogitação. Se pudessem – e têm uma bancada poderosa lhes representando no Congresso Nacional – incluiriam a bola entre os gêneros de primeira necessidade.

A fala sensata de Lisca: “Quase inacreditável que saiu uma tabela da Copa do Brasil, hoje, com jogos dia 10 a 17; 80 clubes; delegações com 30 pessoas de um lado a outro do País. Nosso país parou, gente! Não tem lugar nos hospitais. Estou perdendo amigos, amigos treinadores… Não é hora, cara! É hora de segurar a vida”. E mais: “Campeonato Mineiro, tudo bem, é mais perto. Mas, pegar uma delegação do Sul e levar para Manaus? Como vão fazer isso? Presidente Caboclo (da CBF), Juninho Paulista, Tite (técnico da Seleção Brasileira), Cléber Xavier, autoridades, estamos apavorados, pelo amor de Deus”.

Lisca sabe das coisas e não fechou os olhos à tragédia que, como alerta a banda responsável da classe médica nacional, só vai crescer e deve atingir níveis assustadores, já agora no mês de março. O alerta do treinador deveria ser levado a sério, senão pelos dirigentes do futebol (aí seria pedir muito), mas pela imprensa, a esportiva e a geral. Lisca foi sensato, humano, responsável e consequente. Tudo o que não se encontra no tenente reformado e enxotado do Exército Brasileiro e que hoje ocupa, inacreditavelmente, a presidência da República, protegido por esse mesmo Exército.

E, numa semana tão trágica, qual foi a nova do “mito”? Bem ao seu estilo irresponsável e moralmente capenga, ele expeliu esta: “Para a mídia, o vírus sou eu. Criaram o pânico. O problema está aí, lamentamos, mas você não pode viver em pânico. Que nem a política, de novo, do ‘fique em casa’, o pessoal vai morrer de fome, de depressão?”. Sem surpresa, uma afirmação ao seu pior estilo negacionista, da ciência, da situação do Brasil e do mundo, da sua própria irresponsabilidade. É não ter a menor ideia do que acontece ao País e ao seu povo. Ou ter, e querer justamente tudo o que está acontecendo.

O Brasil está às portas da marca trágica das 260 mil mortes pela Covid-19. A política oficial de enfrentamento do Coronavírus é, em si, outra tragédia. O Ministério da Saúde faliu em sua incompetência, não tem médicos, só militares, a começar pelo seu titular, general da ativa nomeado quase que ao som de um mantra: “Ah, mas ele é perito em logística!”. Conversa mole! A bagaceira que aconteceu nos procedimentos de compra, produção e distribuição da vacina, mostra que o tal “ministro” Eduardo Pazuello pode enganar que sabe de tudo, menos de logística. Já o caos brasileiro da Covid-19, este sim, tem a assinatura do ministro e do presidente dele.

Que bom que o Brasil tem gente feito Lisca, que de “doido” não tem nada. Que pena que temos, ocupando o Palácio do Planalto, alguém que de presidente também não tem nada. Um, por sua coragem e sensatez, deveria ser ouvido com atenção. Por isso é ídolo por onde passa: América, Ceará, o meu Náutico. O outro, pelo lamentável conjunto da obra, já deveria estar respondendo a um processo de impeachment, o que não ocorre por causa de sua retaguarda parlamentar que atende pelo nome de – com licença da má palavra – “Centrão”. Mas, isto é outra conversa.

Escrito por:

Jornalista e compositor, com passagem por veículos como o Jornal do Commercio (PE) e as sucursais de O Globo, Jornal do Brasil e Abril/Veja. Teve colunas no JC, onde foi editor de Política e Informática, além de Gerente Executivo do portal do Sistema JC. Foi comentarista político da TV Globo NE e correspondente da Rádio suíça Internacional no Recife. Pelo JC, ganhou 3 Prêmios Esso. Como publicitário e assessor, atuou em diversas campanhas políticas, desde 1982. Foi secretário municipal de Comunicação. Como escritor tem dois livros publicados: "Bodas de Frevo", com a trajetória do grupo musical Quinteto Violado; e "Onde Está Meu Filho?", em coautoria, com a saga da família de Fernando Santa Cruz, preso e desaparecido político desde 1973. Como compositor tem dois CDs autorais e possui gravações em outros 27 CDs, além de um acervo de mais de 360 canções com mais de 40 músicos parceiros.

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