O mundo à parte dos tempos bolsonaristas

29 de março de 2021, 11:21

Este é o anúncio mais assustador já feito sobre a promessa de paraíso em um conjunto residencial para quem pode. É mais do que um paraíso ou um oásis ou uma ilha de felicidade em Porto Alegre. É um mundo à parte.

Não um espaço ou um lugar, mas um mundo. O anúncio do empreendimento da Multiplan está na internet, ao lado de propagandas sobre máscaras, motos e cervejas, como uma provocação a quem nunca terá a chance de chegar perto de um mundo à parte. Talvez com escolas à parte, comércio à parte, restaurantes à parte, sete lagos, bares, academias, amigos, médicos, seguranças e sonhos e misérias humanas à parte.

O anúncio é de um condomínio gigante à beira do Guaíba. O Golden Lake, o lago dourado, definido como um bairro privativo. Em tempos normais, um anúncio com esse apelo talvez não incomodasse tanto.

Um bairro para poucos numa cidade cada vez mais segregacionista. Uma cidade que, se não tivesse os investimentos de convivência e lazer na orla, para a classe média e o povo que agora podem ver o pôr do sol em arquibancadas, seria uma capital caindo aos pedaços.

Porto Alegre é a cidade em que a foto da fumaça da chaminé do forno de um crematório apareceu nos jornais do mundo todo. Os crematórios produzem fumaça sem parar, como nunca Porto Alegre produziu.

E ainda repercute a notícia dada no sábado pelo The New York Times. Porto Alegre é apresentada como a cidade da morte no mais importante jornal do mundo.

E, saindo no The New York Times, a notícia denuncia também como é relapso nosso olhar da nossa realidade.

Porto Alegre só passa a ser percebida como o novo epicentro do vírus e de suas variantes, como a Manaus do nosso Sul Maravilha, porque saiu no The New York Times.

Saindo no NYT, temos a certeza de que estamos vivendo num ambiente de terror, enquanto o prefeito briga com o governador para que tudo seja reaberto.

O apelo do anúncio faz sentido. Porto Alegre só se tornaria suportável para sua elite se oferecesse a possiblidade de um mundo à parte. Para poucos, talvez para muitos negacionistas.

Enquanto não se concretiza o sonho da vida em Marte, porque a vida em Portugal não é bem a solução, que sirva de consolo, e que consolo, esse luxuoso, asséptico e fechado mundo à parte.

Um mundo certamente sem assaltos, sem medo, com uma vida remota perfeita, com conexões de alta velocidade, sem coronavírus. Estão oferecendo uma distopia, inspirada no que já fizeram no Golden Green da Barra da Tijuca, no Rio.

É mais singela mas também é mais real do que o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Uma cápsula gigante dentro de uma cidade egoísta, que vai destruindo armazéns, padarias e pequenos negócios enquanto a especulação e o individualismo avança.

O mundo que os ricos e a classe média brasileira podem ter como refúgio. Afastar-se ao invés de integrar-se. A ideia de um mundo à parte tem exemplos na literatura, na arte em geral e na vida real, nesta muito mais como tragédia do que como fantasia.

A pregação de um mundo à parte como um mundo ideal, o life style destacado no anúncio, convive com a mesma ideia de eugenia e exclusão.

Não se trata de ver um condomínio que terá tudo de um bairro como uma novidade, claro que não é, mas de observar que o anúncio promete descaradamente o mundo à parte, bem no meio de uma pandemia.

O apelo do anúncio é a explicitação do desejo de ter um mundo só de uma minoria. A ideia é antiga, a mensagem é ofensiva.

Num mundo à parte, num bairro só dela, a direita que elegeu Bolsonaro pode ter a ilusão de que irá se proteger do mundo destruído pelo genocida.

(Para os mais curiosos, o projeto está no link abaixo)

https://bairrogoldenlake.com.br/

https://www.blogdomoisesmendes.com.br/o-silencio-dos-judeus-aliados-de-bolsonaro-diante-das-afrontas-neonazistas/

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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