A ausência de generosidade no debate político brasileiro

13 de maio de 2026, 07:49

Tenho a impressão de que demos uns passos para trás neste século.
A generosidade voltou a ser um atributo da vida privada – quando ela ocorre – e não mais um aspecto da vida pública.
Robert Castel analisou como a caridade privada foi se transferindo para o campo das políticas públicas em seu “Metamorfoses da questão social: uma crônica do salário”. Castel procurou compreender a mudança do que denominou “a questão social”. Seu foco foi a Europa central, mas um dos aspectos mais interessantes que percebeu neste lapso de tempo foi um padrão universal: a assistência social transitou do mundo privado da caridade religiosa para as políticas públicas.
Caridade é uma palavra que vem do latim e significa um sentimento profundo de apreço que leva ao altruísmo. Na tradição cristã, não significa apenas socializar o que se tem para quem tem pouco, mas é um ato de humildade, de negação à ostentação.
Pois bem, Castel sustenta que a responsabilidade pela assistência aos necessitados foi gradualmente transferida das entidades religiosas para o Estado, que passou a assumir um papel central na promoção do bem-estar social.
De alguma maneira, a generosidade social foi se deslocando para o espaço público como uma obrigação estatal. O Estado de Bem-Estar Social, em suas diversas versões, parecia um novo estágio civilizatório do século 20. Até que chegamos aos anos 1990 e o controle fiscal e modelos empresariais de gestão passaram a demolir as paredes deste que parecia ser um padrão mais alto de interesse público.
Na verdade, o pragmatismo cínico e este padrão de inclusão social pelas políticas estatais rivalizaram deste o mercantilismo.
As teses de Maquiavel alicerçaram uma ação de governante que valorizava a força tanto quanto a sagacidade para manter ou expandir um poder político. Alguns séculos adiante, Clausewitz aprofundou a valorização da força na condução da ação pública quando desferiu a sua frase mais conhecida em que sugeriu que a guerra seria a continuação da política por outros meios.
Se recuarmos no tempo, perceberemos que a relação entre política e generosidade vem de longe, quando Platão e Aristóteles sugeriam a relação direta com o bem-comum. Sócrates relacionava a ação pública com o cuidado de si (o autocontrole e o autoconhecimento) com a ação pública, para evitar que um líder se tornasse tirano.
Para não ir tão longe, vale retomar as teses do filósofo francês Alain Badiou, para quem a política verdadeira não é apenas uma questão de poder ou governança, mas envolve a criação de novas possibilidades sociais e políticas que desafiem o status quo. A política buscaria a emancipação dos indivíduos, implicando na luta contra a desigualdade, relacionando com o que denominou de “evento amor”: ambos seriam fonte de radicalidade e transformação, de engajamento com o mundo na busca da realização pessoal e coletiva.
Mas, aí veio o mercantilismo e com ele, o cálculo para se obter um objetivo. A ideia de meta e instrumentalização do saber se fortalece aí, como descreve Weber na introdução da “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”.
Uma vertente desta instrumentalização da política deu no pragmatismo cínico.
A questão aqui é como o caminho da caridade privada para a política pública focada na inclusão social competiu com esta visão oposta de extrema racionalidade e até crueldade no trato da disputa política até que chegamos no estágio atual em que quase tudo é válido no jogo político.
Generosidade nos tempos atuais, somente nos círculos mais íntimos, onde se confia no outro. De casa para fora, a desconfiança em relação ao outro vai escalando até chegar nos espaços públicos, onde o ataque parece ter se tornado a norma de não-relacionamento.

A política virou sinônimo de guerra, a começar pela orientação trumpista e bolsonarista. Mas, atinge todos os escaninhos da política.
Só assim se consegue entender o motivo para politizar um detergente contaminado. E não adianta um jornal de grande audiência revelar que a fábrica estava deteriorada ou que a própria empresa fabricante apresente 239 medidas corretivas, o que é admissão de culpa.
O que importa não é a generosidade ou a ponderação, mas a posição de ataque e a desconfiança como princípio.
A humanidade, assim, se fragmenta. Dá aos pós-modernos, os maiores defensores da fragmentação e das “pequenas narrativas” (no duplo sentido de pequenez), uma vitória inesperada.
Parece que o que está valendo é ganhar do outro e humilhá-lo. A generosidade virou palavrão.

Escrito por:

Rudá Ricci, sociólogo, mestre em ciência política e doutor em ciências sociais. Ex-consultor da ONU e presidente do Instituto Cultiva. Autor, dentre outros livros, de "Desafios do Educador" (Editora Letramento) e "Fascismo Brasileiro" (Editora Kotter)

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