A pergunta mudou de gênero: cadê a Márcia?

21 de junho de 2020, 21:02

Há várias semanas Jair Bolsonaro passa os domingos em Brasília, à frente de manifestações de apoio às suas sandices. O ar triunfalista dessas aglomerações – onde comparecer sem máscara de proteção contra o coronavírus é ato político (da ultradireita) -, não corresponde ao número de participantes. Meia dúzia de gatos pingados. Barulhentos, trazem faixas e cartazes inconstitucionais pedindo o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF). Bolsonaro acostumou-se a bater ponto no final da rampa do palácio, dando a entender que corrobora com a pauta de “reivindicações”.

Neste final de semana, depois de dar fuga ao ex-ministro da (falta de) Educação, Abraham Weintraub –, lembremos que Bolsonaro segurou a publicação da sua exoneração, permitindo que ele viajasse para os EUA, ainda na condição de ministro que não era mais (com direito a passaporte vermelho) –, foi para o Rio.

No Rio se encontra o quartel General da milícia. Uma organização que age contra a população carente exercendo um “poder paralelo” na base do terror. No Rio está preso Fabrício Queiroz, seu amigo há 30 anos, seu ex-funcionário e ex-assessor do seu primogênito, o senador Da República, Flávio Bolsonaro. O que tem demais nesta coincidência? Silêncio.

Bolsonaro disse em uma live, na sexta-feira, que o “ex-amigo?” teve prisão “espetaculosa” – embutindo aí uma queixa, em sua fala. Deixou transparecer, também, que acompanhava as suas “movimentações”, ao se antecipar na explicação do porquê Queiroz estava em Atibaia. Ficava mais perto do hospital Albert Einstein, onde se trata de um câncer, disse. Para quem não tem contato desde que veio à tona o escândalo das “Rachadinhas”, deu a entender que estava par e passo com a agenda do ex-funcionário.

O seu advogado, Frederick Wassef, declarou alto e bom som para um canal de TV: nunca falou ou trocou e-mail com Queiroz. Não é seu advogado. É advogado de Bolsonaro – que em nota emitida por Karina Kufa, também sua advogada, tentou negar -, embora Wassef seja peremptório. Não só é advogado, como detém informações sobre toda a família. Prometeu soltá-las em momento oportuno. Quando? (Silêncio).

Ao negar que fosse advogado de Fabrício Queiroz, como de resto não é, Wassef joga o “cometa” esperado por Queiroz, dentro do palácio do Planalto. Fosse Queiroz seu cliente, teria atenuado o gesto (juridicamente) de protegê-lo. É obrigação do advogado defender os direitos do “paciente” – embora escondê-lo não esteja no rol de providências jurídicas dos defensores. Não sendo o seu defensor, a justificativa para tal gesto é uma só: o fez a pedido. E a pedido de quem?  Um pirulito sabor morango para a resposta a esta pergunta. (Silêncio).

A cada entrevista que concede, o advogado de Bolsonaro e de Flávio Bolsonaro – sim, ele o é, (ou era) -, complica bastante a própria vida e a dos seus (até então), clientes. Wassef parece acompanhar atentamente o noticiário e elaborar “saídas” para cada situação que vê cogitada na mídia ou nas redes. Por exemplo, “desvencilhou-se” da afirmação de que teria “guardado” Queiroz, declarando não ir ao sítio há muito tempo e não saber que estava lá. O que já foi desmentido pelos sinais de sua presença no imóvel, inclusive um carro guardado lá, em seu nome. Tentou dizer que não cedeu o sítio – ao qual quis dar ares de escritório de advocacia, para torná-lo inviolável -, mas não soube esclarecer como Queiroz entrou na propriedade.

O caseiro, Orlando Novaes, homem simples, cidadão comum, havia dito para o delegado responsável pela operação “Anjo”, que Queiroz lá estava há mais de um ano. Wassef o desmentiu. Em seguida, em entrevista à CNN, declarou: “É um consultório de advocacia mesmo, entendeu? Mas o rapaz estava ficando aqui para o tratamento de saúde, ele está com câncer e essas coisas”, declarou. “[Não estava] convivendo, não. Tem poucos dias que está aí, vi ele entrando [e tem] uns quatro dias que não vem aí com negócio de saúde”, acrescentou. Coincidentemente, a mesma explicação dada por Bolsonaro. E por que Bolsonaro teria que dar explicação sobre a estada do Queiroz no sítio, em uma live especial sobre a prisão, não é mesmo?

A declaração do caseiro entra em contradição com uma entrevista concedida ao Globo, do radialista Márcio Motta, (amigo de Flávio Bolsonaro). Nela Motta afirma ter buscado Queiroz no sítio de Atibaia, para levá-lo a Saquarema, onde seu filho, André, defendia as cores do time de futebol local, o Sampaio Corrêa.

Tudo isto aconteceu na semana em que o país atingiu a casa de um milhão de contágios pelo coronavírus e a triste marca de 50 mil mortes pela doença. Mas e daí? Daí que as providências de Bolsonaro foram puramente políticas e em proveito próprio, justo nesta semana.

“Demitiu” um ministro. Mandou três da área jurídica, para São Paulo, fazer rapapés ao ministro do Supremo, Alexandre de Moraes. O mesmo que a extremista Sara Geromini disse que iria encher de socos. O mesmo de quem esperava “decisões absurdas”, que “não se cumpre”. Foram recebidos com cordialidade, mas o que eles não alegaram a Bolsonaro – e olha que são do ramo -, é que, uma coisa é tomar um café, a outra é mudar a letra fria da Lei, que o ministro jurou seguir. Nisto, não há mudança possível. Uma vez o crime configurado, resta julgá-lo e puni-lo. Os três visitantes são cientes disto, e o resultado da visita foi apenas o de um “rolé” por São Paulo.

Sara está presa. Weintaub, que desejou colocar o ministro e seus pares – “um bando de vagabundos”, como os classificou -, na cadeia, teve de deixar o país em uma fuga espetacular, com a ajuda do ex-chefe. Flávio, o primogênito, está sob ameaça de cassação. Os militares “empijamados” de sua cúpula, não deram um pio. E o mandaram manter-se em silêncio. Brasília treme. Brasília se cala. Brasília em suspenso.

A informação que corre nos meios jurídicos é a de que Márcia Oliveira de Aguiar, a mulher de Queiroz, detentora das “estratégias”, está em tratativas com o seu advogado, Paulo Emílio Catta Preta, especializado em delações premiadas, para se entregar na próxima semana. Enquanto isto, aquela pergunta habitual e constante nas redes: cadê o Queiroz? Mudou de gênero. Agora o que se pergunta é: cadê a Márcia?

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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