O alerta vira-lata da Folha aos ministros do STF: tenham medo do fascismo
Uma chamada de capa da Folha de S. Paulo, nessa terça-feira, reproduziu no Brasil o que certos jornais italianos usados pela máfia faziam no século 20. A Folha deu o seguinte alerta: “Supremo começa a julgar Eduardo Bolsonaro sob risco de atrito com EUA”.
Os mafiosos da Itália mandavam recados a inimigos e a juízes, usando jornalistas amigos e jornais submetidos às suas ordens. Havia um pacto de adesão ou de subserviência silenciosa ao crime organizado.
Como existem hoje no Brasil, porque sempre existiram, os guris de recado da direita dentro da grande imprensa. Foi assim na ditadura e ainda é até hoje. E chegamos agora à era em que até o novo fascismo calibra as manchetes dos jornalões. Não necessariamente por cumplicidade deliberada, mas por covardia.
Quando aborda o caso de Eduardo, a Folha não informa que ele seria – como acabou sendo, pela condenação pela primeira turma do STF –, o primeiro filho de Bolsonaro condenado. Eduardo passa a ser criminoso e foragido pelas atitudes que configuraram coação contra o próprio Supremo, na tentativa de livrar o pai e chefe da organização criminosa que tentou dar o golpe.
Não interessou à Folha informar que por isso mesmo esse seria um fato histórico. Não importou ao jornal destacar a bravura do STF, que enfrenta a extrema direita desde o começo dos processos contra os golpistas.
A Folha preferiu mandar o recado. Cuidado com os atritos com Trump. Se esse fosse um caso paroquial, envolvendo um juiz e um chefe miliciano do Rio, a Folha poderia manchetear um aviso direto ao magistrado: vossa excelência vai provocar uma facção poderosa de Rio das Pedras.
Há naturalidade, há demasiada normalidade na manchete da Folha com o alerta de Eduardo ao STF. Por que chegamos a esse ponto? Porque o bolsonarismo, ainda vivo e com candidato à presidência, não representa apenas o antilulismo.
O bolsonarismo é uma excrescência da democracia, sem partido e sem o que antes chamavam de orientação programática. O bolsonarismo não significa nada nem para a Faria Lima, como alguma coisa com algum fundamento para a economia. Significa apenas que fará o serviço sujo, na área em que for preciso.
Questões elementares num debate sobre propostas, que passam, pelo ponto de vista do mercado, por encolhimento do Estado, privatizações, arrocho fiscal, cortes de ‘gastos’ sociais, juro, câmbio e outras econometrias e clichês liberais – nada disso tem relevância.
Importa que o bolsonarismo mantenha e aperfeiçoe sua índole mafiosa num eventual novo mandato. Se a Folha alerta ministros do Supremo de que Eduardo virá com retaliação, sob a proteção de Trump, o que será da nossa vidinha de comuns mortais sob um segundo governo fascista?
O bolsonarismo ameaça, manda recados e avisa que da próxima vez será pior do que aconteceu a partir de 2018, quando Bolsonaro anunciou que mandaria os inimigos para a ponta da praia. Temos hoje recados diários.
A Folha está inserida nesse contexto e virou guri de recados da família, como faziam os jornalistas italianos sob controle das máfias. Ingênuos são os que subestimam esses recados e o fato de que no Brasil, enquanto a grande maioria dos juízes republicanos resiste, alguns negociam sentenças e outros participam de banquetes com extremistas que irão julgar.
A Itália, que agora nos manda lições de como a Justiça brasileira deveria se comportar, no caso da criminosa Carla Zambelli, não se esquece do que acontecia com os juízes cercados pelos mafiosos acumpliciados com políticos, jornais e jornalistas.
A Itália tem a memória do que aconteceu com os juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, assassinados porque enfrentaram o poder econômico e político das máfias. Os italianos sabem como se deu a perseguição a jornalistas que estavam ao lado desses juízes.
O recado da Folha ao STF não é apenas desrespeitoso e acintoso em defesa do agora condenado Eduardo Bolsonaro. Seus jornalistas informaram, em 2022, que o fascismo brasileiro tinha um plano de execução de Alexandre de Moraes, de Lula e de Alckmin. Os autores do plano estão presos, mas outros que os substituirão estão livres.
O recado da Folha é criminoso por fomentar o medo e reforçar a retórica da extrema direita de que os juízes devem ter cuidado com o que fazem, para que não sofram represálias de gângsteres brasileiros e estrangeiros.
Mas a lição que nos serve não é a dos juízes de Roma protetores da condenada Carla Zambelli. O que deve nos inspirar é o exemplo dos magistrados que enfrentaram as máfias e seus mensageiros nos jornais italianos.
Reprodução: BlogdoMoisesMendes