O que vai fazer o país de Ricardo Salles na Cúpula do Clima?

21 de abril de 2021, 14:03

A permanência de um ministro do (baixo) nível de Ricardo Salles é impensável até mesmo em um governo capenga e sem compromisso algum com a decência para lidar com o meio ambiente. Tosco, suspeito, incompetente e colecionador de teses e propostas imorais, para se dizer o mínimo, a figura em tela traduz, de maneira sobeja, o porquê de sermos um país escorraçado perante o mundo quando se trata de temas em que passamos vergonha. Como combate à Covid-19, direitos humanos, política externa e, no caso de Salles, a preservação da natureza, em particular das nossas matas.

Entre os que não compõem o gado bolsonarista e até entre eleitores arrependidos do “mito”, Ricardo Salles constrói,  no momento, uma sólida  unanimidade. É detestado pelos servidores dos órgãos de sua área, sobretudo os da fiscalização, desprezado pelos criminosos ambientais que se beneficiam com sua “política”, visto com descrédito pelos empresários, achincalhado em escala planetária, vira e mexe está na mira do Judiciário. É uma tragédia moral e ambiental. Mas, ainda tem poder e prestígio junto ao seu patrão-presidente. Sabe-se lá até quando.

Ricardo Salles compõe um time no qual já brilharam, como defesa ou como ataque, “craques” do quilate dos esquecíveis Abraham Weintraub ou Ernesto Araújo, dois gigantes da pequenez que fizeram da Educação e as Relações Internacionais duas pastas em ruínas. Grupo diferente de outro cujas características são mais folclóricas e, às vezes risíveis, como a ministra Damares Alves, daquele pasta de nome enorme e legado quase zero, ou o ministro-astronauta Marcos Pontes, quase invisível na fila do espaço.

O ministro do Ambiente é ideológico, também. Dentro daquele conceito de ideologia que o governo bolsonarista consagrou, à luz dos ensinamentos do “filósofo” Olavo de Carvalho e do “saber imensurável” dos filhos do presidente da República. As teses e, sobretudo, a prática de Salles casam com o que de pior se pode imaginar numa política pública que é o desdém para com a vida e o foco total no lucro e na vantagem.

Ideologia que o injustificável ministro verbalizou numa célebre reunião, há um ano (22 de abril), quando propôs, em português não tão castiço, mas claro, que o governo se aproveitasse de nascente pandemia provocada pelo Coronavirus para “deixar passar a boiada” de barbaridades legais para desmatar o que se pudesse:

“Então pra isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De IPHAN, de ministério da Agricultura, de ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação, é de regulatório que nós precisamos, em todos os aspectos.”

Vale republicar o trecho completo. É o autor dessa barbaridade que comporá, como assessor privilegiado (e à altura) do presidente da República, a representação brasileira na Cúpula dos Líderes do Clima, na China, esta semana. O que tem a dizer num encontro desse porte um país que tem um ministro do Meio Ambiente desse naipe?

Escrito por:

Jornalista e compositor, com passagem por veículos como o Jornal do Commercio (PE) e as sucursais de O Globo, Jornal do Brasil e Abril/Veja. Teve colunas no JC, onde foi editor de Política e Informática, além de Gerente Executivo do portal do Sistema JC. Foi comentarista político da TV Globo NE e correspondente da Rádio suíça Internacional no Recife. Pelo JC, ganhou 3 Prêmios Esso. Como publicitário e assessor, atuou em diversas campanhas políticas, desde 1982. Foi secretário municipal de Comunicação. Como escritor tem dois livros publicados: "Bodas de Frevo", com a trajetória do grupo musical Quinteto Violado; e "Onde Está Meu Filho?", em coautoria, com a saga da família de Fernando Santa Cruz, preso e desaparecido político desde 1973. Como compositor tem dois CDs autorais e possui gravações em outros 27 CDs, além de um acervo de mais de 360 canções com mais de 40 músicos parceiros.

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