Se prepare: os operadores de campanha eleitoral tentarão fisgar eleitores
Há duas máximas em processos eleitorais que não podemos esquecer nunca. A primeira é que a versão é mais importante que o fato. Explico.
Se alguém lhe disser que o Presidente da República ou o chefe da empresa que você trabalha não vê o mundo real do chão da rua, possivelmente concordará de imediato. Possivelmente, concordará e dará um sorrisinho maroto. A imagem reforçará sua convicção que a maioria dos chefes são mimados e não vivem nossa vida real. Contudo, esta convicção não cabe tão bem para você, certo?
O que estou querendo afirmar é que todos nós – incluindo o Presidente da República ou da empresa – somos mais afetos à versão colorida da realidade. Ou a mais espetacular. Não nos fiamos pela realidade crua, mas pela versão que embala mais a realidade. Será assim durante este ano eleitoral.
As versões precisam ser verossímeis e necessariamente devem chamar a atenção. Uma versão muito complacente e angelical não chama a atenção e não convence. Já uma versão que chacoalhe as certezas nos leva a acreditar que é “mais realista” e nos obriga a rever certezas. Porém, como disse acima, não pode ofendê-lo, mas deve ofender um “inimigo”.
Passo para outro exemplo. Você deve ter visto a foto do cavalo caramelo no telhado de uma casa durante a recente tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul. A cena é absolutamente inusitada, incomum. Porém, o impacto foi grande e ligou nossa mente e emoção a todos animais caramelos. Se fosse um cavalo premiado de um haras montado para ganhar muito dinheiro, possivelmente o impacto e a compaixão aflorada não seria tão intensa. Contudo, a cena de um animal indefeso, de cor caramelo, ilhado por uma ação humana, generalizou a leitura sobre a situação.
Agora, o segundo item (base da segunda máxima político-eleitoral) que será explorado nesta eleição: a emoção. As escolhas humanas, ao contrário do que os racionalistas defendem, não são delimitadas à realidade, mas às crenças e esperanças. Justamente porque a tomada de decisão muito racional gasta muita energia.
O cérebro humano consome cerca de 20% da energia total do corpo. Se fôssemos o tempo todo racionais e calculistas, estaríamos esgotados no final de cada manhã. Aliás, é por este motivo que estamos esgotados atualmente: estamos cheios de informações.
Assim, nossa tendência é equilibrarmos poucos momentos de raciocínio intenso com muitos momentos de intuição e decisão rápida. Agora juntemos os pontos: as versões são mais importantes que os fatos e tendemos a decidir por intuição.
Os comunicólogos e técnicos que operam com algoritmos das redes sociais saberão trabalhar com versões verossímeis, espetaculares, inoculando dúvidas ou reforçando preconceitos neste ano. Mais: tentarão criar “intuições artificiais” a partir de aspectos secundários.
Agora mesmo estamos sendo bombardeados. Do lado bolsonarista, veiculam Bolsonaro desprotegido, sofrendo inúmeras cirurgias, como um “humano caramelo”. Além disso, nos últimos dois dias, bombardearam a viagem de Lula aos EUA.
Do lado do lulismo, reforçam a competência de Lula em defender o Brasil e divulgam dados muito bons da economia nacional. E, aí, erram porque não dialogam com as emoções. Falam da realidade e sugerem um olhar mais racional sobre o que ocorre.
Interessante que as campanhas eleitorais do PT tiveram início com forte comoção e presença de artistas. A intenção era clara quando pregavam “sem medo de ser feliz”.
Não deixa de ser um dilema ou a necessidade de um novo enquadramento. Lula é muito mais experiente e habilidoso que Flávio Bolsonaro. Então, trata-se de um ativo eleitoral. Contudo, se for muito racional na campanha, não dialoga com o sistema de tomada de decisão do eleitor.
O fato é que, para nós mortais, campanhas trabalham com versões e tentam nos fisgar pela emoção e raciocínio intuitivo, rápido e fácil. É bom sabermos disso antes do tiroteio que começará em julho.