A Parada LGBTI foi à guerra contra o fascismo. E a Marcha da Maconha?

20 de junho de 2022, 12:43

Apesar da conversa fiada da neutralidade de alguns, a Parada do Orgulho LGBTI+ em São Paulo deixou claro que também é um ato antifascista e antibolsonarismo, o que no fim é a mesma coisa.

A Parada defendeu maior representação de gays e trans no Congresso e na política em geral, com o slogan “Vote com Orgulho – Por uma Política que Representa”. E gritou fora, Bolsonaro.

São Paulo mandou um bom recado a quem ainda defende uma Marcha da Maconha ‘despolitizada’, entre outros eventos em defesa de liberdades e organizados como afrontas ao ultraconservadorismo e ao preconceito que tudo criminaliza.

Manifestações que ignorem a realidade política e a gravidade dos dramas brasileiros diante do avanço da extrema direita devem assumir que são apenas marchas recreativas dedicadas a reivindicações. É um direito, é uma possibilidade, mas que sejam o que significam nas suas limitações.

Uma marcha pelas liberdades individuais, mas alheia ao contexto político e coletivo (e ao aumento da violência contra todas as liberdades), equivale a uma Marcha do Chá de Boldo.

Assim como quem consome produtos orgânicos e planta alface em vasos em casa, mas é incapaz de engajar-se à luta mais ampla pelo ambientalismo, é apenas um comedor de alfaces orgânicas.

Mais ou menos como o reaça que cultiva seu jardim com toda a dedicação e é insensível às grandes ações em defesa da vida e do ambiente, em florestas ou em cidades.

O cara que deseja fumar maconha livremente mas é um resignado diante do fascismo que o oprime é apenas um fumador de maconha.

Tudo bem. É um direito dele. Mas estará completamente alienado num país em que fumadores de maconha ainda são presos e pequenos traficantes de maconha são mortos todos os dias, se forem pobres e negros.

O direito de quem quer fumar maconha deve ser respeitado, e muito respeitado, mas estará à margem da compreensão de que essa é uma luta bem mais complexa, se estiver desconectado de todo o resto.

Liberdades individuais, num contexto de total degradação de um país, não podem estar apartadas das grandes questões coletivas. Lutar contra a repressão à maconha é muito mais do que reivindicar um direito pessoal.

Os liberais amam essa luta libertária do direito individual. Os verdadeiros liberais, os liberais radicais, defendem liberdade para tudo.

Mas pergunte aos liberais dos direitos individuais se eles concordam com os direitos dos negros às cotas nas universidades, ao ProUni, ao socorro permanente do Estado a pobres e miseráveis (e não apenas eventualmente), se defendem um SUS fortalecido.

Pergunte a um liberal dos direitos individuais o que ele acha dos direitos dos servidores públicos e por que esse liberal participa da destruição da previdência.

Pergunte o que ele pensa dos indígenas e dos indigenistas. Converse com um liberal sobre o destino que ele daria aos moradores das cracolândias.

Participantes do ativismo por demandas coletivas, e o direito de fumar maconha de forma recreativa é uma delas, não podem ser confundidos com liberais organizadores dos fóruns das liberdades.

A Marcha da Maconha terá de se inspirar na Parada LGBTI+, não necessariamente no sentido de lutar pela eleição de quem fuma maconha, mas de apontar o dedo na cara de quem reprime quem fuma maconha e destrói o país.

Quem deseja fumar maconha livremente não pode ser avalista da eleição não só de gente da extrema direita, mas de quem se diz de centro e vota contra todas as pautas que representem avanços sociais e de costumes em todas as áreas.

A Marcha da Maconha, como aconteceu com a Parada LGBTI+, será uma marcha transgressora se for também um evento antifascista.

https://www.blogdomoisesmendes.com.br/lembrem-se-de-darcy-penteado/

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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