Um recado aos que planejam motins

5 de abril de 2021, 10:13

Mais uma informação vinda da Bolívia, que pode interessar aos que sonham no Brasil com a transformação das polícias militares em estruturas bolsonaristas a serviço de motins contra os governadores e, mais adiante, como suporte até para um golpe.

Desde o início de março, o Ministério Público pediu e a Justiça determinou a prisão de protagonistas do golpe de novembro de 2019 e de ações violentas que mataram depois mais de 20 pessoas nas ruas.

Já foram presos cinco militares e três civis, entre os quais Jeanine Añez, que tomou a cadeira de Evo Morales como interventora ou presidente de fato, como eles definiam a ex-senadora golpista.

A polícia ainda procura chefes militares e civis que foram ministros de Jeanine. As ordens de prisão são contra 13 pessoas.

E agora vem o detalhe que interessa a quem incentiva ou planeja motins. Dos cinco militares presos, um está em prisão domiciliar. É o general Rodolfo Montero, um dos chefes da Polícia Nacional.

Por que só um preso, se os policiais militares (que têm o caráter de força nacional federal fardada) iniciaram o golpe, amotinando-se nos quartéis e indo às ruas com cartazes (foto) em que declaravam que aquilo era um motim?

O que explica uma única prisão é que a evolução das sindicâncias sobre os amotinados está sendo mais lenta. A investigação corre no Tribunal Disciplinar Superior.

Os bolivianos aguardam os nomes dos condenados e suas penas. Eles podem ser presos, expulsos da corporação ou sofrer sanções disciplinares. Ao mesmo tempo, andam devagar as promoções para que o novo comando da polícia reestruture as hierarquias e se livre dos golpistas.

As listas de promoções haviam sido prometidas pelo governo para janeiro e estão sendo adiadas, talvez à espera do desfecho das sindicâncias no tribunal militar.

A Bolívia fará uma limpeza nas forças policiais que puxaram os generais para o golpe. Alguns setores da polícia até hoje ameaçam o governo com a advertência de que não aceitarão punições.

A polícia boliviana entrou numa fria ao se submeter às ordens de Fernando Camacho, o líder fascista de Santa Cruz de La Sierra.

As forças passaram a seguir o chefe civil do golpe, para que não reprimissem as manifestações de rua contra Morales. Camacho prometeu o que não poderia entregar.

O motim incluía liberdade total aos que saíram às ruas para derrubar o presidente. Os policiais assumiram posição golpista, porque essa seria a vocação das polícias, de se aliarem sempre à direita. Eles e Camacho empurraram o alto comando das Forças Armadas para a aventura que, mais adiante, não deu certo.

O golpe foi derrotado nas eleições de outubro do ano passado, quando Luis Arce, candidato do Movimento ao Socialismo, de Morales, venceu com folga.

Quem comandou o golpe, quem determinou ações violentas com mortes contra os que resistiram ao golpe e quem se corrompeu durante o ano em que os golpistas ficaram no poder estão sendo enquadrados pelo Ministério Público e pela Justiça.

Os amotinados ficaram por último nas punições. Poderemos ter, nos próximos dias, a lista com pedidos de prisão preventiva dos policiais que chefiaram o motim e dos que incentivaram a aventura, como fazem aqui certos deputados da extrema direita, entre os quais um filho de Bolsonaro.

É uma situação política complicada. Logo depois de assumir, Jeanine fez, por encomenda dos chefes miliares, um decreto em que as forças armadas e a polícia nacional não poderiam ser punidas pela repressão aos que combatiam o golpe.

Era uma autorização para que matassem à vontade e de fato mataram, em dois massacres de rua. Os amotinados descobrirão logo, dentro da cadeia, que o decreto não vale nada.

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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