Irmãos siameses. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O que querem é tirar Bolsonaro ou domesticar Bolsonaro?

4 de junho de 2020, 11:59

Lula mais uma vez foi atacado pela mídia comercial e por setores da esquerda por se recusar a assinar um manifesto “pela democracia” que exclui os trabalhadores e não cita o desmonte de direitos desde o golpe contra Dilma –não cita nem mesmo Jair Bolsonaro.

Muitas das críticas a Lula por não assinar o manifesto do “Juntos” foram feitas como se o objetivo fosse o impeachment de Bolsonaro. “Lula não quer se unir contra Bolsonaro”, disseram. Mas nada indica que seja esta a intenção do movimento

Em todos os veículos de comunicação as chamadas foram na mesma toada, dizendo que Lula “criticou” os manifestos e até que “debocha” deles. Detalhe: as críticas partiram de gente que, dois meses atrás, atacou o governador João Doria por “se associar” a Lula contra o coronavírus e que, em 2018, rejeitou se unir a Fernando Haddad contra o mesmo Bolsonaro, dizendo ser “uma escolha muito difícil”. Haddad, diga-se de passagem, assinou o tal manifesto.

Mas quem assistir ao vídeo de Lula na íntegra vai perceber que há, na reticência do ex-presidente ao manifesto, um fato concreto: muitos dos que estão ali –que se calaram ou mesmo votaram em Bolsonaro e se arrependeram– estão torcendo o nariz para o presidente troglodita que ajudaram a eleger, não para a agenda econômica do ministro da Economia, Paulo Guedes. Agem como se Bolsonaro fosse “sujo”, mas Guedes, um pinochetista declarado, fosse “limpinho”. E Lula se mostra desconfiado de que uma parte dos subscritores do manifesto na verdade o que deseja não é tirar Bolsonaro do poder e sim domesticá-lo.

“Eu estou percebendo uma coisa muito grave: o que eles estão tentando é apenas reeducar o Bolsonaro, mas não querem reeducar o Guedes, o Guedes que continue fazendo toda a maluquice que faz na economia, que venda todo o patrimônio público, que minta para a sociedade sobre o futuro do Brasil, sobre o investimento privado”, disse Lula. “Muitas dessas pessoas não estão querendo tirar o Bolsonaro, não. Estou vendo no editorial de O Globo que eles estão até pensando em fazer um acordo para o Bolsonaro ficar, porque o que interessa para a elite brasileira é a política do Guedes, a política de desmonte do Guedes.”

O editorial do jornal O Globo citado por Lula saiu no domingo, 31 de maio, véspera da reunião do diretório onde o ex-presidente fez as ponderações. Lá, os Marinho falam que “os democratas precisam conversar” e defendem textualmente que o processo deve incluir Bolsonaro. “Esta via política não deve excluir Bolsonaro, que, por sua vez, precisa fazer um gesto pelo entendimento, a melhor alternativa também para ele e seu governo. Com a pacificação, o presidente abrirá espaços de negociação no Congresso, para além do centrão, a fim de executar sua agenda, paralisada, como tudo, devido à crise política”, diz o jornal.

Ora, então Lula tem toda razão ao ficar com a pulga atrás da orelha com um movimento que se diz “pela democracia”, mas não cogita tirar Bolsonaro do cargo. Observem que o ex-presidente não critica “todos” os manifestos, como quer a mídia comercial, mas apenas o do Movimento Estamos Juntos. O Basta!, dos juristas, critica diretamente Bolsonaro, que “exerce o nobre mandato que lhe foi conferido  para arruinar com os alicerces de nosso sistema democrático, atentando, a um só tempo, contra os Poderes Legislativo e Judiciário, contra o Estado de Direito, contra a saúde dos brasileiros, agindo despudoradamente, à luz do dia, incapaz de demonstrar qualquer espírito cívico ou de compaixão para com o sofrimento de tantos”. Mas não teve o destaque do outro.

“O manifesto Basta!, dos advogados, recebeu o rodapé dos jornais. O manifesto dos ‘Juntos’ ocupou quase três minutos do Jornal Nacional e nos outros também. Fiquei pensando que a Globo tinha ajudado a fazer o manifesto ou era uma coisa muito ligada à Globo”, criticou Lula. “A gente precisa ter consciência do que está por detrás disso. Nós queremos tirar o Bolsonaro porque queremos que o povo brasileiro volte a sorrir, a ter emprego, a acreditar, que o Brasil volte a ser protagonista internacional, que volte a ser respeitado, que o povo possa tomar café, almoçar e jantar todo dia. E eu não sei se é isso que estão querendo.”

A luta “pela democracia” não precisa ser feita numa frente unificada. Podemos muito bem criar uma frente de esquerda contra Bolsonaro e Guedes que se junte ocasionalmente à frente da direita liberal pró-Guedes contra Bolsonaro

“A gente percebe que são manifestos feitos com boas intenções, tem muita gente boa assinando o manifesto, mas também tem gente que está fugindo do barco. E ninguém fala dos direitos perdidos dos trabalhadores. Tem um debate organizado pelos mesmos tucanos que organizaram o ‘Direitos Já’ lá no Tuca. Mas eles acabaram de tirar os direitos dos trabalhadores. E agora estão dizendo que vão fazer debates por direitos?”

Estas observações fazem todo sentido, porque muitas das críticas a Lula por não assinar o manifesto do “Juntos” foram feitas como se o objetivo fosse o impeachment de Bolsonaro. “Lula não quer se unir contra Bolsonaro”, disseram. Mas nada indica que seja esta a intenção do movimento. A dúvida de Lula é coerente: temos que estar unidos para tirar Bolsonaro do cargo, mas é isso mesmo que os organizadores do movimento Estamos Juntos querem? Por que então não citam o presidente? Bolsonaro é citado, sim, em outro manifesto, do Pacto Pela Democracia. “É preciso reconhecer de forma inequívoca que a ameaça fundamental à ordem democrática e ao bem-estar do país reside na própria Presidência da República”, diz o texto.

Não faz sentido que o PT e a esquerda sejam obrigados a se aliar automaticamente a movimentos de centro-direita contra Bolsonaro –e cujo “anti-bolsonarismo” no futuro se revele fake, porque não há como dissociar Guedes de Bolsonaro

O alerta de Lula ao PT e à esquerda de maneira geral é para que não nos unamos em um movimento que esconde aonde exatamente quer chegar. Não faz sentido que o PT e a esquerda sejam obrigados se aliar automaticamente a movimentos de centro-direita contra Bolsonaro –e cujo “anti-bolsonarismo” no futuro se revele fake, porque não há como dissociar Guedes de Bolsonaro. Partidos como o PSDB e o DEM, hoje alinhados em manifestos “pela democracia”, votaram em peso a favor das reformas de Guedes que prejudicam os trabalhadores, ao contrário do PT, PCdoB e do PSOL. Aprovar a agenda econômica do governo no Congresso enfraquece ou fortalece Bolsonaro?

A luta pela democracia não precisa ser feita numa frente unificada. Podemos muito bem criar uma frente de esquerda contra Bolsonaro e Guedes que se junte ocasionalmente à frente da direita liberal pró-Guedes contra Bolsonaro. O que precisamos, urgentemente, é de agendas claras nestes manifestos. Ou nós, progressistas, vamos continuar sendo arrastados para lutas que não são as nossas. Luiz Inácio avisou.

Escrito por:

Cynara Menezes é baiana de Ipiaú e tem 53 anos. Formou-se em jornalismo pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) em 1987. Desde então, percorreu as redações de vários veículos de imprensa, a começar pelo extinto Jornal da Bahia: Jornal de Brasília, Folha de S.Paulo, Estadão, revistas IstoÉ/Senhor, Veja, Vip, Carta Capital e Caros Amigos. Atualmente se dedica com exclusividade a seu site Socialista Morena. É autora dos livros Zen Socialismo (os melhores posts do blog Socialista Morena), pela Geração Editorial, O Que É Ser Arquiteto, com João (Lelé) Filgueiras, e O Que É Ser Geógrafo, com Aziz Ab’Saber, os dois últimos pela editora Record.

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