A arte de confundir também se aprende na escola

17 de junho de 2020, 20:41

Bolsonaro continua a praticar a sua política de “lançadeira” – a peça responsável por fazer o ir e vir nas máquinas de costura, levando a linha que prende os tecidos. Fala e (des)fala, ameaça e tenta aparentar que concilia. Tal prática leva ao princípio de Abelardo Barbosa, o Chacrinha, que como já lembrei aqui, neste mesmo espaço, dizia ter vindo para “confundir e não para explicar”. Tal prática, a de criar confusões, acreditem, tem origem científica e é matéria de currículo nas fileiras do Exército. Está tudo lá, na cartilha do Estado Maior do Exército, sob o título de “Manual de Campanha – Operações Psicológicas”.

Na sequência de tuítes sobre as suas rixas com o STF, exercitou os seus ditames como ninguém. Ameaçou, mentiu, confundiu. Em um dos parágrafos dos seus tuítes, a exemplificação se torna gritante: “Só pode haver democracia onde o povo é respeitado, onde os governados escolhem quem irá governá-los e onde as liberdades fundamentais são protegidas. É o povo que legitima as instituições, e não o contrário. Isso sim é democracia”.

Nada mais falso e autoritário. Desde que assumiu, há um ano e meio, Bolsonaro tem esta postura de que foi alçado ao cargo de “imperador” e não o de presidente, submisso a uma Constituição. O povo escolhe, elege. Daí por diante, os desígnios não são mais os do povo, e sim da Carta Magna, onde consta que existem três poderes e a eles o presidente deve se adequar e respeitar, para servir à nação em geral, e não apenas aos que o elegeram.

Para Bolsonaro e seus seguidores, no entanto, embora a Carta seja composta de 250 artigos e aproximadamente 90 emendas, só existe um, que repetem à exaustão: Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. A levar isto adiante, estabeleceremos a volta da monarquia.

Puro jogo de cena. O que ele parece seguir, mesmo, é a cartilha de formação de oficiais. Ao que tudo indica, parece ser o seu livro de cabeceira. A brochura é alterada e modernizada de tempos em tempos. A criação do seu conteúdo se deu ainda sob a égide da ditadura, em 1977, mas a última versão data de 1999: “PORTARIA Nº 070-EME, DE 26 DE AGOSTO DE 1999 Aprova o Manual de Campanha C 45-4 – Operações Psicológicas, 3ª Edição, 1999.”

A “finalidade” do manual: “destina-se a estabelecer as bases doutrinárias das Operações Psicológicas (Op Psico) e a orientar o seu planejamento e emprego em tempo de paz ou de guerra”. E segue com noções básicas sobre Comunicação e persuasão. “A guerra sempre foi o confronto entre vontades. O convencimento obtido por meio da persuasão provou ser mais eficaz do que até mesmo a completa dominação pela força. As Op Psico constituem uma parte essencial do poder”.

Um dos pontos que Bolsonaro parece ter aprendido direitinho, foi o que ensina: “a caracterização do público-alvo é de importância fundamental, pois é para ele que todo o esforço é dirigido. A precisa interpretação de suas peculiaridades dirá ao planejador qual a melhor maneira de desenvolver as ações. O sucesso das Op Psico depende de planejamento bem estruturado e da coerência nas campanhas a serem desenvolvidas. Portanto, deverá ser centralizado no mais alto escalão.”

E para os que chegaram até aqui e acreditam que suas atitudes são irrefletidas, eis um ponto em que não será difícil identificar suas ações: “A difusão emprega os veículos previamente escolhidos, capazes de transmitir as mensagens dirigidas ao público-alvo” (não são por acaso as suas entrevistas concedidas apenas a: SBT, Band, Record). E, ainda, de acordo com a cartilha, o serviço de Comunicação deve ter capacidade para operar “descentralizadamente por destacamentos”. Alguma semelhança com a estrutura do “gabinete do ódio”?

Nos trechos a seguir residem os princípios mais identificados com o modo de agir de Bolsonaro. A esta altura, a cartilha toma o exemplo de uma frase bem sucedida, usada por uma organização de esquerda no período da ditadura:

“O País enfrentou, há algum tempo, a ação de um ativo movimento revolucionário. Das atividades desenvolvidas pelos agentes do movimento destacaram- se a agitação e a propaganda, particularmente como instrumento para solapar e desacreditar o governo junto à população. Assim, por meio de agressivas campanhas, as autoridades constituídas eram atacadas e o regime contestado, através de intensa panfletagem denunciando a desnacionalização da economia, de pichação de muros e paredes com “slogans” ofensivos, dentre os quais se destacou a frase “ABAIXO A DITADURA”, e de ampla disseminação de panfletos, sobressaindo-se o que apresentou o povo em aclamação, com os dizeres “LIBERDADE NÃO SE GANHA E NEM SE COMPRA – LIBERDADE SE CONQUISTA!”.

A propaganda cinza é a propaganda adversa que oculta sua origem sem, no entanto, pretender atribuí-la a outra origem diferente da verdadeira. (a) Principais vantagens: 1) empregada com habilidade, pode atingir seus objetivos, evitando o estigma de propaganda adversa, alcançando, assim, maior aceitação; 2) pode valer-se de temas sensacionalistas, sem reflexos negativos para o prestígio da origem; e 3) pode ser usada com o objetivo de realizar sondagens em áreas inimigas, mediante a exploração de determinados temas. Nesses casos, funciona como balão de ensaio.

O elemento mais importante da análise da propaganda adversa é averiguar o propósito da mensagem. (…) O passo seguinte, para o analista, é o da identificação das palavras-chave, dos temas e das linhas de persuasão, cuja frequência serve para comprovar as suposições iniciais. Devem ser estabelecidas, para cada uma delas, a intensidade e a relativa cadência de emprego. (…) A principal vantagem decorrente deste modelo é que, a partir da determinação das diretrizes básicas, várias tarefas podem ser confiadas a pessoas não especializadas”. (Basta observar o time de comunicadores escolhidos por Bolsonaro. Quase ninguém é do ramo).

A cartilha recomenda também cuidado na escolha, “pelo emissor, de um grupo-alvo. Pode-se, desde logo, reconhecer a existência de quatro grupos típicos: o aparentemente visado (que pode, de fato, ser também aquele visado), o realmente visado, um grupo possivelmente intermediário (que teria potencial para portar a mensagem àquele realmente visado) e, finalmente, grupos atingidos eventualmente, embora não fossem visados. Novamente esse conhecimento define o grau de técnica utilizado e, assim, a capacidade do emitente. (3) O público-alvo é extremamente importante para o contra propagandista. Este, precisa conhecê-lo em profundidade, saber quais são suas principais características, suas motivações e suas aspirações”.

Com 199 páginas, o manual parece ter sido distribuído no Planalto. No mínimo, entre os três mil que saíram das fileiras para Brasília. Veja o conteúdo completo da Cartilha: https://www.slideshare.net/DanielFXA/manual-de-campanha-operaes-psicolgicas-c-454

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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