(Foto: Reprodução)

A Bahia viu Geraldo. Alckmin viu o povo

4 de julho de 2022, 14:33

Caro companheiro Alckmin,

Devo confessar, aqui neste espaço, que fui uma das que torceu o nariz para aquele evento onde o seu nome foi apresentado para compor a chapa Lula/Alckmin. Não necessariamente por seu histórico, pois entendi a gravidade do momento político que atravessamos – nós contra o fascismo -, mas por considerar que um partido com 40 anos de história, nascido do chão de fábrica, não poderia anunciar a sua chapa num restaurante de bacana, numa zona rica de São Paulo. Haveria de ter outra forma mais popular de dizermos à militância, que iniciávamos uma caminhada de alianças. Até porque, antevi que a reação ao seu nome seria muito menor, se a divulgação da escolha fosse feita de outra forma.

Paciência. Conferimos – o senhor mais do que ninguém – a ira dos inconformados, a desconfianças cobertas de razão, dos gatos escaldados, e a intolerância até mesmo dentro das fileiras da executiva. Natural. Todos sabem de onde veio o partido e as lutas que travou para existir, sobreviver e manter a base minimamente coesa.

Mergulhei nos jornais da época de 2016 para entender qual foi, de fato, a sua posição. E para ser justa, conferi que o seu posicionamento inicial foi contra o impeachment (até abrir as catracas do metrô, em concordância com o seu antigo partido, para deixar passar os que gritavam pelo golpe). Sei das suas declarações a favor de que o tucanato se mantivesse longe da conspiração – mas como, (!!!) Se eram a própria espinha dorsal do golpe!? – e, caso apoiassem, que não participassem do governo Temer. E, se algum quadro quisesse participar, que se licenciasse do partido.

E antes que a comunidade me atire pedras, quero deixar claro que isto é história, está gravada nos jornais impressos, não é um posicionamento meu. Não tenho procuração para defender o senhor e tampouco posso falsear com a verdade registrada na mídia, com suas “aspas”.

E, devo dizer, ainda com certo azedume, apesar de ciente dos fatos descritos acima, preparei-me para assistir ao lançamento oficial da chapa com o seu nome, num local fechado, mas grande o suficiente para vê-lo encarar – ainda que por telão, posto que estava recolhido com covid –, um público expressivo de petistas, militantes.

Frustração. O teste não foi presencial. Do telão, visivelmente abatido, com olheiras visíveis e arroxeadas, eu o vi pronunciar o seu discurso que já começava conquistando a ala progressista, louvando o SUS que propiciou vacinas para que a sua doença fosse leve o bastante, a ponto de permitir que estivesse ali, gravando um vídeo que, ao ser exibido, calou a plateia. Não somente pelo conteúdo, mas pela forma emocionada com que foi dito. Sem escamotear as desavenças, sem fingir que era um “integrado”.

 “Eu quero começar por dizer que nada, nenhuma divergência do passado, nenhuma diferença do presente, nem as disputas de ontem, nem eventuais discordâncias de hoje ou de amanhã, nada, absolutamente nada, servirá de razão, desculpa ou pretexto para que eu deixe de apoiar e defender, com toda a minha convicção, a volta de Lula à Presidência do Brasil”.

Importantíssimo pontuar e delimitar as diferenças, mas os trechos que viriam seriam ainda mais significativos para o escrutínio a que estava submetido naquele momento:

“A democracia é marcada, sim, por disputas. Disputas fazem parte do processo democrático. Mas, acima das disputas, algo mais urgente e relevante se impõe: a defesa da própria democracia. E quando essa defesa reclama a formação de alianças, e as alianças são construídas graças à persuasão, e não à cooptação por verbas ou aliciamento por cargos, essa conjunção de forças políticas torna-se uma formidável conquista. Quando o presidente Lula me estendeu a mão, eu vi nesse gesto muito mais do que um sinal de reconciliação entre dois adversários históricos. Vi um verdadeiro chamado à razão”.

A partir desse trecho vi cair as minhas resistências à sua escolha. Sim. O senhor reconheceu em poucas palavras e um exemplar poder de síntese que: estava no ostracismo político (quase vestindo o pijama). Foi traído por seus pares. Foi forçado a optar pela troca de partido e, finalmente, foi guindado por um gesto de valorização e um chamado do presidente Lula.

E, por fim, neste outro trecho, dito com uma expressão que passou confiança, botou abaixo a última gota de restrição que eu pudesse ter, pois traduziu em discurso a sua adesão aos valores que o campo progressista defende neste momento:

“O Brasil sobrevive hoje ao mais desastroso e cruel governo da sua história. Perdulário nas despesas públicas, hipócrita no combate à corrupção, patrocinador de conflitos temerários e querelas inúteis, despreparado na condução da economia, ineficiente administrativamente e socialmente injusto e irresponsável. O que é mais necessário constatar para se concluir que o Brasil precisa de mudança?”

Nada. Estamos todos convencidos disso. O que não estávamos ainda muito seguros era de que maneira um engomadinho com ares de interiorano e postura de aristocrata seguiria pelas ruas com o Partido dos Trabalhadores, ao encontro do povo.

As imagens do 2 de julho na Bahia exibiu um Geraldo Alckmin visivelmente deslumbrado com o colorido da diversidade baiana e brasileira, onde predominou o vermelho das camisetas e das suas bochechas, afogueadas de entusiasmo e deslumbramento. Desajeitado, sim, tentando encaixar os ombros no empurra-empurra, vestido com camisa social e saudando a população com tchauzinho de astro pop, ele foi ficando para trás na fila que abria o cortejo. Perdeu-se na formação de políticos no abre-alas. Deixou transparecer se importar mais em olhar para o seu entorno. Deu a entender que se encontrou no calor da festa, onde demonstrou estar feliz como um pinto no lixo.

Espera-se, que cumpra o prometido e seja: “um parceiro leal, seriamente compromissado com o seu propósito de fazer do Brasil um país socialmente mais justo, economicamente mais forte, ambientalmente mais responsável e internacionalmente mais respeitado”.

Ali, no meio do povão, se mostrou em acordo com o fecho do seu discurso na apresentação da chapa: “Vamos nos colocar a serviço desse propósito. Que nossos corações sejam um só. Vamos juntos pelo Brasil”.​ Vambora!

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Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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