Ciro Gomes (Foto: Reprodução/Twitter)

A boa jogada de Ciro Gomes

18 de outubro de 2021, 13:37

Dizer que ao longo da vida Ciro Gomes deu reiteradamente mostras palpáveis de seu temperamento explosivo é ser gentil com ele e não propriamente fiel à verdade. Dizer que volta e meia ele se descontrola não seria gentil, embora mais próximo da verdade. 

Vamos, pois, ficar com a primeira opção.

Só que seus recentes – e extremamente violentos – ataques a Lula, ao PT e a Dilma Rousseff não se devem ao seu temperamento: foram, são e certamente continuarão a ser parte de uma estratégia bem desenhada.

Caso Lula, Dilma ou o PT deixassem passar em branco, o silêncio poderia ser entendido como uma espécie de admissão de culpa. Estariam endossando as acusações, por mais absurdas que fossem – caso, por exemplo, de Lula ter participado da conspiração que derrubou Dilma.

Ao dar resposta ao destempero, porém, tanto Lula como Dilma e o próprio PT cumprem à perfeição a estratégia de Ciro Gomes e fazem com que seu objetivo seja alcançado: ganhar espaço, amplo espaço, nos meios hegemônicos de comunicação.

Trocando em miúdos: ajudam o candidato em 2022 a sair do marasmo e voltar à superfície.

Não é, de jeito nenhum, uma jogada casual. Obedece, vale reiterar, a uma estratégia bem desenhada por ele e pelo seu marqueteiro, João Santana, que aliás conhece de sobra meandros tanto de Lula como de Dilma e do PT.

A questão é outra: além de ganhar espaço nos meios de comunicação Ciro Gomes ganha espaço entre os eleitores? Quanto de espaço?

Ele é hoje a tão mencionada terceira via, entre Lula e Jair Messias (se é que ele vai manter a candidatura). Daí sua necessidade de abrir espaço para além dos poucos pontos assinalados pelas pesquisas atuais (não passa de 10%, e isso na melhor das hipóteses). E, claro, manter um olho mais que aceso na direção de quem ocupará a quarta via.

Caso o atual panorama apontado pelas pesquisas prevaleça, Ciro e, a depender de quem seja, a tal quarta via teriam potencial para forçar um segundo turno. E aí surge outra questão: quantos dos eleitores de Ciro optarão por se abster, votar em branco ou anular o voto? Quantos se bandearão para os lados de Jair Messias? Quantos votarão em Lula nesse eventual segundo turno?

Há, enfim, uma outra hipótese que certamente passou e passa pela cabeça tanto de Ciro Gomes como a de seu marqueteiro: que Jair Messias desista de uma eleição praticamente perdida e opte por uma vaga no Senado ou na Câmara, com certeza já assegurada. E por que diabos ele faria isso?

Simples: se perder a eleição Jair Messias perde a imunidade. Ficará exposto ao caminho inevitável dos tribunais. E de lá, para a cadeia.

Sem a presença da messiânica criatura na eleição presidencial Ciro Gomes ganha mais espaço? Com certeza. A ponto de ameaçar Lula? Muito dificilmente. Há, porém, um dado importante: ele perde a eleição mas sai bem fortalecido.

Pois é: Ciro Gomes pode ser o que for. Mas não é burro. Sabe o que está fazendo, tem lá sua estratégia, e por enquanto está se dando bem.

Até quando, não se sabe. Mas tem conquistado espaço nos meios de comunicação que certamente estão e estarão contra Lula, e isso é o que mais importa agora. Depois, veremos.

Escrito por:

Eric Nepomuceno é jornalista e escritor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *