A farda cada vez mais manchada

9 de agosto de 2022, 15:19

A Revolução de 31 de março de 1964 começou com uma mentira. Não foi Revolução coisa nenhuma, foi golpe de Estado. E não aconteceu no dia 31 de março, mas no primeiro de abril – dia, aliás, da mentira. Pelo menos nisso houve congruência.

Durou longuíssimos 21 anos. Não foi, é verdade, tão sanguinária como as ditaduras padecidas nos vizinhos, com destaque para as da Argentina, Chile e Uruguai. Mas foi cruel, perversa e a que mais tempo durou.

Ao longo do tempo, e desde a volta da democracia, a imagen das Forças Armadas foi sendo lentamente reconstruída. 

Embora a mancha daqueles anos tenebrosos tenha se mantido intacta na memória de quem padeceu a ditadura, a verdade é que desde a redemocratização as Forças Armadas ostentaram com clareza o papel que é a elas determinado pela Constituição: formam parte do Estado e não de determinados governos.

Houve, é verdade e ninguém deve ou pode esquecer, o escorregão do então Comandante do Exército, o outrora falante e atualmente arfante general Eduardo Villas Bôas, a figurinha desprezível que dobrou um poltrão Supremo Tribunal Federal em 2018. 

Essa imundície foi a maior – e mais tenebrosa – mancha nas fardas desde a redemocratização.

Assim era o panorama até pouco antes da campanha eleitoral daquele 2018, que levou a figura patética de um desequilibrado à presidência. 

Exibindo um passado militar mentiroso, Jair Messias intencionalmente misturou as Forças Armadas à sua imagem. E o resultado tem sido péssimo.

Naquele 2018 o cenário começou a mudar rápidamente, e a sua chegada ao Palácio do Planalto no primeiro dia de 2019 virou o barco de vez.

Figuras grotescas e asquerosas foram tiradas do breu do tempo e instaladas no governo. Nada mais representativo dessa cambada que os empijamados que cercam Jair Messias, a começar por um Augusto Heleno cujo corpinho miúdo só consegue ser maior que seu caráter. E isso, para não mencionar bestialidades como o criminoso Eduardo Pazuello.

O que os militares distribuídos pelo governo do pior e mais abjeto presidente da história da República fazem, de maneira incessante, é justamente imundar as fardas que haviam sido cuidadosamente limpas desde a volta da democracia neste país agora destroçado.

Quando Jair Messias for catapultado da poltrona presidencial haverá milhares de militares empijamados que perderão suas benesses. 

Nada porém será comparável à verdadeira perda, que é a da imagem reconstruída aos poucos e lentamente.

O caso desse coronel da ativa chamado Ricardo Sant’Anna é totalmente esclarecedor do cenário em que vivemos. 

É impossivel acreditar que o ministro da Defesa, o general empijamado Paulo Sérgio de Oliveira, não soubesse das traquinagens do coronel Sant’Anna. 

Ao indicar seu nome para o grupo fiscalizador do processo de votação no Tribunal Superior Eleitoral o que o ministro da Defesa fez foi pura provocação. E com ese gesto emporcalhou ainda mais a farda de seus colegas que estão ativos.

Ao expulsar o tal coronel, o que o presidente do TSE, Edson Fachin, fez foi expor a que ponto chegou a desmoralização generalizada – sem trocadilho – dos fardados. 

A confiança dos brasileiros em seus militares vem despencando debaixo de Jair Messias.

Aí está outro destroço que precisará ser reconstruído quando ele tiver sido expelido da poltrona presidencial.

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Escrito por:

Eric Nepomuceno é jornalista e escritor

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