(Foto: Webysther Nunes)

A Folha precisa salvar o próprio rabo

20 de janeiro de 2022, 12:57

É histórico, exemplar e inspirador o manifesto de jornalistas da Folha contra a manobra do jornal de publicar textos com abordagens racistas em nome de pluralidade e diversidade. É uma bravura a ser aplaudida não só pelos colegas jornalistas.

O fundamentalismo avança no Brasil pela disseminação de desinformação, alienação, resignação e omissões. E segue em frente bem acomodado também no reboque da covardia.

O nazismo prosperou na Alemanha e na Paris ocupada porque muitos se acovardaram. Recorrer ao argumento da defesa da pluralidade, para dar espaço a pensadores do racismo, é uma forma de se acovardar.

O que a Folha está dizendo é que, para acalmar seus leitores racistas, precisa abrir espaços a tudo o que os clichês do cinismo chamam genericamente de contraditório.

A Folha subestima seus leitores. É um vexame que tal argumento seja usado num momento em que até a imprensa das corporações não admite, por exemplo, dar espaço a ideias negacionistas difundidas nas redes sociais e na mídia bolsonarista como sendo “o outro lado”.

William Bonner chegou a ler editorial no Jornal Nacional, no ano passado, em que a Globo deixava claro: aqui não haverá espaço a quem se vale do direito de opinião para negar a ciência e se dedicar à propaganda da cloroquina e à sabotagem da vacinação. 

Mas a Folha acha que, para mimar seus brancos que se consideram oprimidos pelos negros, pode publicar textos de defensores da classe média decadente e reacionária refugiada no colo de Bolsonaro.

A Folha joga para a sua torcida branca e bolsonarista, mesmo que dissimulada, para fomentar falsas controvérsias e melhorar audiências.

Se a Folha acredita mesmo no que defende, deverá potencializar seu ponto de vista com decisões que reafirmem essa postura. Deve abrir espaço a negacionistas, na mesma medida em que concede a teóricos do racismo reverso.

A Folha é desafiada, na mesma linha, a contratar articulistas que ataquem a democracia em nome de uma pretensa defesa da democracia.

Deve chamar para seus quadros articulistas grileiros, garimpeiros e contrabandistas de madeira que falem da ameaça dos defensores da Amazônia aos seus negócios criminosos.

Que contrate não só colunistas eventuais e avulsos defensores da grilagem reversa, mas fixos e bem remunerados.

O manifesto dos jornalistas emparedou a Folha e não terá, como alguns pretendem, o efeito contrário de fortalecer a ideia de que o jornal pratica a diversidade.

O custo da repercussão do manifesto é maior do que as vantagens para o jornal que sempre tenta vender a conversa de que é plural. A Folha que se vangloriava de ter o rabo preso com os leitores está agora com o rabo nas mãos dos racistas.

O custo é alto. A empresa parece estar se divertindo com o marketing da pluralidade, como já fez outras vezes. Mas a guerra não é mais apenas, como nos anos 80, de democratas contra sabotadores da redemocratização.

O Brasil e o mundo ficaram mais complexos. Não adianta insinuar que denunciar racismo é exagerar na abordagem das questões identitárias.

As convicções do jornal passam a ser testadas. São duas as alternativas mais óbvias: aprofundar a ideia da pluralidade a qualquer custo ou recuar e rever a conduta da radicalização das ‘liberdades’ com pensadores identificados com a extrema direita.

O bom é que a Folha acionou a bravura dos próprios jornalistas, como acontecia na ditadura. Com a diferença de que na ditadura os comandos do jornalismo e os donos dos jornais aderiram em algum momento ao barulho das redações. A Folha precisa salvar pelo menos o próprio rabo.

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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