Arquivo Nacional (Foto: Divulgação)

A memória em perigo

26 de novembro de 2021, 19:50

Acontece de novo e de novo, como aliás vem ocorrendo desde janeiro de 2019: são tantos os desatinos, são tantas as iniciativas do governo que oscilam entre o grotesco e o assustador, que é alto o risco de que outras ameaças e outras barbaridades acabem passando ao largo das atenções.

Por exemplo: o imenso, tremendo perigo que paira sobre o Arquivo Nacional. Se as artes e a cultura, pilares básicos da identidade de um povo, já vem sendo sufocadas pelo canastrinho que ocupa a secretaria de Cultura (tudo nele, a começar pelo caráter e indo até a decência, é ínfimo), agora é a vez de atentar contra a memória, ou ao menos certa memória.

Cabe ao Arquivo Nacional abrigar documentos, fotografias e ilustrações que nos contam a nossa trajetória, o que inclui processos de tribunais civis e militares.  

E é justamente em parte crucial dessa trajetória – o golpe de 1964 e a ditadura sanguinária que se estendeu por longos 21 anos – que o mais dantesco, patético e perigoso presidente da nossa história concentra sua enfermiça atenção.  

Não em vão Jair Messias cercou-se de militares, policiais e o que mais houver de fardado, mesmo sendo da reserva. Entre outras funções, enquanto se banham em benesses, está a de tentar apagar o passado e destruir tudo que vem sendo erguido ao longo de décadas, desde o fim da ditadura.

No dia 19 de novembro apareceu, no Diário Oficial, o nome do novo diretor do Arquivo Nacional: Ricardo Borda D’Água de Almeida Braga.  

Soa a personagem de Jorge Amado, mas ao contrário do mestre baiano é um desconhecido no ramo da memória.

Borda D’Água é advogado. Até aí, nenhum problema: poderia ser um advogado dedicado a estudar a memória brasileira.

Só que não, o diploma nem foi levado em consideração. Ele foi escolhido porque, além de ter sido gerente de segurança do Banco do Brasil no Rio de Janeiro, adora armas. Aliás, ganhou prêmios atirando.

É sócio de clubes de tiros, foi dono de uma empresa de “consultoria e treinamento em segurança” e, glória das glórias, foi elevado à categoria de “colaborador emérito” do Exército, seja lá o que isso for.

O governo de Jair Messias já tinha autorizado as repartições federais a destruir qualquer documento sem autorização do Arquivo Nacional.

É fácil imaginar o que corre o risco de ser destruído nas casernas: material que, por descuido ou incompetência, tenha sobrevivido aos tempos da ditadura.    

Borda D’Água surge do limbo tendo uma missão específica pela frente. Ainda há tempo de impedir que ele tenha êxito. A questão é quem terá condições de expelir essa criatura do lugar ao que foi destinado por um cada vez mais tresloucado Jair Messias.

Ar artes e a cultura sobrevivem sempre. A memória, nem sempre.  

Escrito por:

Eric Nepomuceno é jornalista e escritor

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