Roberto Campos Neto (Foto: Marcos Corrêa/PR)

A vacilada de Bob Fields Neto como guardião da moeda

4 de outubro de 2021, 19:20

O neto de Roberto Campos, flagrado como dono de uma conta cheia de dólares no Panamá, deveria ser submetido a um castigo. Ler e reler, até aprender, o que avô escreveu nos anos 90.

O primeiro texto a ser lido faz parte da “Antologia do bom Senso” (TopBooks, 1996). Bob Fields conta por que um Banco Central deve inspirar e transpirar confiança, segurança e autonomia, a partir do seu comandante, um xerife que deveria ter mandato fixo e ser intocável.

Campos narra que em fevereiro de 1967, um mês antes de Castello Branco passar a ditadura ao comando de Costa Silva, recebeu uma missão.

Era ministro do Planejamento e deveria, por ordem de Castelo, fazer ao futuro presidente-ditador uma explanação sobre as grandes questões econômicas na Constituição.

O economista começou falando do Banco Central. Sentou-se diante de Costa e Silva e disse a frase que está no alto da página do BC na internet: “O Banco Central é o guardião da moeda”.

Bob Fields não diz, mas sugere que Costa Silva era de fato limitado, quando o marechal retrucou com essa resposta: “O guardião da moeda sou eu”.

Estava encerrada a aula de apenas uma frase. O texto se chama “A lei não pegou” e trata do fracasso da ideia de que o BC deveria ser autônomo e imune a pressões dos ministros da Fazenda e dos conflitos com Tesouro, governos gastadores, Congresso, políticos.

Bob Fields foi um dos criadores do Banco Central, em 1964. Quando teve aquela conversa com Costa e Silva, o banco estava com pouco mais de dois anos de vida.

O texto, com pitadas do sarcasmo de sempre, é a defesa do BC como organismo em que o que mais importa é a reputação e a capacidade de resistir às pressões políticas para cumprir sua missão: proteger a moeda.

A reputação deveria ser conquistada por um presidente do banco imexível, que fosse forte, inspirador de confiança e autoridade e que não criasse muitos vínculos políticos e não se submetesse às ordens do ministro da Fazenda.

O neto de Campos está lá no BC com a armadura de guardião da moeda no governo torto de Bolsonaro. O que se sabe de algo que ele possa ter em comum com o ministro da Economia é a conta em dólares. Paulo Guedes também tem a dele.

A conta de Bob Fields Neto destrói toda a argumentação do avô em favor de um BC forte e com um presidente que cuida da moeda com poder, porque inspirador de sabedoria.

Um guardião da moeda que tem uma offshore não transmite sabedoria alguma. Conspira contra a própria imagem de gestor e não transmite um mínimo de sapiência política.

Não vale 10 centavos o argumento de que a conta é legal porque foi declarada. Nem que, desde que Campos Neto assumiu, não recebe novos depósitos. Não importa. Esse debate é irrelevante.

O que interessa é que a conta deveria ter sido lacrada. Um guardião da moeda nacional não pode estar protegido fora do país com uma dinheirama em moeda estrangeira.

É uma traição à simbologia do cargo. Proteger a moeda de um país é missão que só perde para a garantia dos direitos dos cidadãos e das liberdades. Um país sem moeda confiável é uma nação a caminho da fila do osso.

O BC ajuda a calibrar inflação, juros e tudo o que tem relação com dinheiro e deste com a economia em geral. Mantendo uma conta secreta no Exterior, o presidente do BC estava escondendo que tem medo do que possa acontecer.

Roberto Campos Neto está nos dizendo ago0ra, ao ser flagrado, que os outros devem acreditar que ele é o guardião da moeda imaginado pelo avô. Mas ele mesmo não se considera esse guardião.

Bob Fields Neto está nos avisando que não confia na própria capacidade de cuidar da moeda. É mais uma revelação do bolsonarismo que usa bons ternos.

Se tivesse lido o texto da antologia, o neto teria ficado com a essência do que o avô escreveu. Não basta ao presidente do BC ser o guardião da moeda, mas parecer guardião.

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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