Aldo Rebelo vê nas Forças Armadas a solução e não o problema

20 de fevereiro de 2021, 13:59

Viver é um ato político. O ex-ministro, ex-deputado federal e ex-integrante do PC do B – partido em que militou por muitos anos, até 2017, quando rompeu e ingressou no PSB, antes de sua última experiência de filiação no Solidariedade -, Aldo Rebelo tem levado esta visão ao pé da letra. Fora das lides partidárias, dedica-se a ler os clássicos, como a “História, de Heródoto, literatura brasileira e história do Brasil. Também aproveitou a quarentena para se dedicar a redigir artigos para o Portal Bonifácio e concluir um ensaio intitulado “O V Movimento”, com ideias para a “retomada da construção inacabada do Brasil”.

Ao ser questionado sobre um possível retorno ao cenário das candidaturas desconversa, mas deixa antever que não descartou de todo a ideia. Tido como de perfil conciliador, como sempre fez, não perde de vista os nós em que o país está metido, observando e dialogando com amigos. Um deles, o general Villas Boas. Ele mesmo, o ex-comandante do Exército que esteve no noticiário, requentando um tuíte que desembocou na eleição de Bolsonaro, e legando suas “memórias”, onde descreve a urdidura do golpe de 2016 e suas motivações. O Jornalistas pela Democracia entrevistou Rebelo por e-mail e colheu citações como: “A conciliação só pode existir quando reúne, além da necessidade, a vontade dos homens, uma causa generosa e um tempo favorável”. O ex-deputado explica que procura “reduzir o coeficiente de atrito e de desconfiança entre as Forças Armadas e os setores progressistas porque é disso que o Brasil precisa”. Trabalho árduo, o dele.

JD – O senhor passou por altos cargos na política, tendo deixado no imaginário nacional a ideia de conciliador. Ao mesmo tempo, desde 1985 foi um dos expoentes do PC do B, o partido que fez a Guerrilha do Araguaia, uma revolta em nome da resistência à ditadura, ou seja, uma ação radical. Como o senhor pode ajudar, neste momento, quando nos falta tanto o diálogo?

AR – A conciliação só pode existir quando reúne, além da necessidade, a vontade dos homens, uma causa generosa e um tempo favorável. Ela foi possível ao reunir índios, negros libertos, mestiços, senhores de engenho e religiosos quase brasileiros, pois ainda éramos uma colônia, na jornada pela expulsão dos holandeses do Nordeste no século XVII. Ela também existiu nas lutas pela independência quando o gênio político do Patriarca uniu monarquistas e republicanos, fazendeiros e gente do povo para fazer a Independência do Brasil. Fenômeno parecido de conciliação entre grupos sociais aparentemente antagônicos ocorreu para se fazer a Abolição, a República e a Revolução de 1930.

Hoje nos falta a causa generosa que só pode ser o interesse nacional, o Brasil como causa e não as reivindicações particulares, individuais, de corporações sociais ou biológicas. É a centralidade da questão nacional o eixo em torno do qual o Brasil pode encontrar a conciliação possível. Eu tenho apontado três caminhos capazes de reunir amplas forças sociais, políticas, econômicas e intelectuais possíveis de tecer um pacto de conciliação: a retomada do desenvolvimento, a redução das desigualdades e a defesa da democracia.

O Brasil é o país das alianças heterogêneas e não dos sectarismos ideológicos. As alianças heterogêneas nos permitiram construir a base física e o território com a expulsão dos holandeses, a Independência, a Abolição e a República e realizar transições e rupturas com o menor custo de violência possível, e só as alianças heterogêneas serão capazes de retirar o Brasil do imobilismo e da desorientação em que ele se encontra.

JD – Como presidente da Câmara dos Deputados o senhor conduziu a casa em um período bastante conturbado da vida brasileira, quando se tentou, pela primeira vez, pintar o PT como o “partido da roubalheira”. Como foi ultrapassar aquele período na Câmara, nesse ambiente conflagrado?

AR – A corrupção, como bandeira política, levou o presidente Vargas ao suicídio e foi usada sucessivamente contra os mais diferentes governos, desde Juscelino, João Goulart, Geisel, Sarney, Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique, Lula e Dilma. Sobreviveram aqueles que organizaram uma base política capaz de enfrentar a ofensiva dos adversários. É provável que nos governos do PT a corrupção tenha sido menor do que em muitos governos anteriores, mas essa não era a percepção de seus adversários na política, no Ministério Público e na mídia. Lembra o Sermão do Bom Ladrão, do Padre Antônio Vieira, quando ele descreve uma procissão dos grandes ladrões a caminho para enforcar os pequenos ladrões.

Eu tenho a mais absoluta convicção da honestidade e da honradez da presidente Dilma Rousseff, noves fora, os erros políticos que possa ter cometido. Conheço desde muito jovem os proprietários do tal sítio de Atibaia, e sei que ele não pertence ao ex-presidente Lula. E hoje todos sabem do que cercou as ações do grupo de promotores e do juiz de Curitiba neste processo, quando se misturou a caça a corruptos de verdade com objetivos políticos de agentes públicos e interesses partidários.

A minha eleição para a presidência da Câmara ajudou a pacificar o ambiente político. Eu tinha boas relações com os principais líderes da oposição e os consultava sobre a agenda, entregava relatorias de projetos importantes a deputados do PSDB, do DEM e de outros partidos que não integravam a base do governo. Além disso, a economia dava sinais de recuperação, o que ajudou a pacificar momentaneamente a vida nacional. Na presidência da Câmara não trabalhei para dividir, mas para conciliar, desde que o interesse nacional estivesse contemplado.

JD – Tendo ocupado cargos importantes como, por exemplo, o de ministro de Estado da Secretaria de Coordenação Política e Relações Institucionais do Governo, como vê o estado em que o país se encontra? Qual a saída?

AR – O Brasil vive um processo de profunda desorientação política e ideológica dos diferentes grupos políticos conservadores e progressistas. O governo brasileiro, em nome de uma aliança ideológica com os Estados Unidos, renuncia a reivindicações econômicas e comerciais do País, no caso das cotas de álcool, do aço, da participação em organizações multilaterais. Entrou em conflito com parceiros dos BRICS, com a Índia no episódio das patentes para vacinas, com a China no caso da tecnologia 5G. Na América do Sul destruiu mais de 100 anos de política externa de integração com os vizinhos por conflitos com Venezuela, Bolívia e Argentina para atender as posições geopolíticas dos Estados unidos no subcontinente. Quer maior desorientação do que essas?

Por sua vez, grupos pretensamente progressistas, articulados em uma certa Rede nos Estados Unidos para a Democracia no Brasil, formada por acadêmicos e ONGs norte-americanas e brasileiras divulgaram um documento intitulado Recomendações sobre o Brasil ao presidente Biden e ao novo governo dos Estados Unidos que é um verdadeiro programa de intervenção colonial nos assuntos internos no Brasil. A pretexto de defender as justas causas da democracia, dos direitos humanos, os índios, o meio ambiente, e a Amazônia, o Relatório sugere a violação da soberania brasileira, a adoção de sanções comerciais e militares contra o Brasil, a suspensão de negociações bilaterais sobre comércio e há um ataque ao Centro de lançamento de Alcântara, Base do Projeto Espacial Brasileiro. As recomendações são um verdadeiro manifesto de desorientação política e ideológica desses setores progressistas do Brasil.

Há no Brasil uma direita que recorre aos Estados Unidos em nome de uma civilização ocidental que não nos reconhece com integrantes, e uma esquerda cosmopolita e identitária que abdicou da Nação e da luta coletiva e abraçou a pauta dos costumes e do comportamento e as liberdades individuais. É esse o estado da arte no momento.

JD – Qual a saída?

AR – A centralidade da questão nacional, que pode unir amplamente o País e oferecer esperança a todos os brasileiros independentemente de classe, de raça e de gênero.

JD – O senhor sente falta do cotidiano da política? Pensa em voltar a se candidatar, a que cargo?

AR – Faço política quando leio, e tenho lido bastante e relido clássicos como a História, de Heródoto, literatura brasileira e história do Brasil. Também escrevo artigos para o Portal Bonifácio e concluí um ensaio intitulado O V Movimento, com ideias para a retomada da construção inacabada do Brasil. Tudo isso é política. Candidatura é um assunto que só desejo tratar depois.

JD – A sua interlocução com o segmento dos militares sempre foi considerada boa. Como um egresso de um partido comunista conseguiu espaço e confiança entre os que têm uma visão oposta à sua, dos fatos da nossa história recente, como o período da ditadura, por exemplo?

AR – Entre os meus defeitos mais antigos e mais persistentes está um amor profundo ao meu País, à sua memória e à sua história. Sempre considerei as Forças Armadas instituições fundadoras da nacionalidade nos sentidos material e espiritual. Quando cheguei à Câmara dos Deputados passei a integrar as comissões de Defesa Nacional e de Relações Exteriores sempre em contato e em cooperação com as assessorias militares. Dava muita atenção à agenda das Forças Armadas quando poucos deputados tinham essa preocupação. Nunca considerei a Ditadura como um golpe militar na sua origem, mas sim como uma conspiração civil na qual os militares entraram por último. Não quero isentar militares de responsabilidade nos enganos de 1964, mas quero sim relativizar suas responsabilidades.

JD – Como presidente e coordenador da CPI das ossadas do Cemitério de Perus, em algumas das conversas e encontros com os militares, o senhor tentou extrair deles informações a respeito do que houve ali? Chegaram a falar sobre o período?

AR – Eu era vereador na CPI de Perus e a minha responsabilidade não envolveu contatos com militares na época.

JD – A experiência como responsável por analisar o pedido de impeachment do ex-presidente Collor lhe diz se há condições de deflagrar um processo de impeachment contra Bolsonaro? O senhor é favorável a que se dê andamento em um dos pedidos?

AR – O impeachment da presidente Dilma me convenceu do erro do impeachment do presidente Collor. O problema é que no presidencialismo instável do Brasil nós não temos o voto de censura dos regimes parlamentaristas. Aqui a censura é o impeachment. Quando o governo perde maioria, arranja-se um crime de responsabilidade para se afastar o chefe do Executivo. O que o parlamentarismo resolve ordinariamente o presidencialismo transforma numa espécie de golpe parlamentar. Na presidência da Câmara arquivei dezenas de pedidos de impeachment do presidente Lula por não ver neles nenhum indício de crime de responsabilidade. Eu não tenho dúvida de que o presidente atual cometeu delitos contra a Constituição nos casos das afrontas ao Supremo Tribunal Federal e na negligência com a pandemia. Cabe ao Supremo e ao Congresso a análise desses fatos.

JD – Para 2022, a continuar no mesmo ritmo o cenário político, vê chances de vitória para Bolsonaro? Contra quem?

AR – Eu acho difícil o presidente Bolsonaro ganhar as eleições de 2022, mas não impossível. A esquerda anda muito ressentida, prisioneira da pauta dos costumes e isso já é muita água para a canoa do governo navegar.

JD – O PC do B, seu partido durante muitos anos, sempre marchou junto com o PT, que apesar de ser o maior partido de oposição no país, nas discussões sobre 2022 é visto como “hegemônico” e um partido que não abre mão da cabeça de chapa. Como se posiciona a respeito das hipóteses das candidaturas que vêm sendo colocadas?

AR – Eu não posso censurar o PT por querer ter candidato, é um direito legítimo. O que os outros precisam fazer é arranjar uma candidatura e um programa mais viáveis do que o que o PT apresente.

JD – O PC do B tem apostado em Flávio Dino, governador do Maranhão. Ele seria, na sua opinião, um nome para cabeça de chapa? Com que vice? Um nome do PT, ou Luciano Huck, como o próprio Dino já aventou?

AR – O Flávio Dino tem sido um bom governador no Maranhão, é um homem respeitado. Huck tem procurado se aproximar de setores do PSDB de São Paulo, decepcionados com Dória. Não sei se pode dar certo, mas é muito conhecido por causa da televisão e tem ideias moderadas sobre as coisas e uma simpatia visível de parte do sistema financeiro.

JD – O ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, está na rua discutindo as ideias elaboradas em um projeto do PT para um futuro governo. Como vê essa movimentação? O senhor o considera candidato? Apoiaria esta candidatura?

AR – Fernando Haddad já foi candidato a presidente da República e para as circunstâncias até que não se saiu mal. Não sabia dar bom dia a um sertanejo, mas foi bem votado no Nordeste. É educado e compõe o típico perfil do intelectual urbano do PT paulista.

JD – O senhor é próximo do comandante do golpe perpetrado contra a ex-presidente Dilma Rousseff, eleita pelo voto direto, articulado com Michel temer. Ele foi decisivo também na retirada de Lula do elenco de candidatos a 2018, quando pressionou o STF para prendê-lo. Ficou abalado com a informação que ele trabalhou pelo golpe de forma mais efetiva do que se supunha?

AR – Eu sou amigo do general Villas Bôas desde o tempo em que ele, coronel, assessorava o Exército na Câmara dos Deputados. Percorremos pelotões de fronteira na Amazônia, aldeias indígenas e comungamos muitas ideias sobre o Brasil. Ele não participou de uma articulação golpista contra a presidente Dilma. Aliás, ele, o almirante Leal Ferreira e o brigadeiro Rossato, que comandavam respectivamente o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, foram de uma lealdade absoluta à presidente da República, sem que isso se traduza por apoio às ideias da presidente. Quando ele publicou o infeliz tuíte, o presidente era Michel Temer e não creio que isso tenha influenciado na decisão do Supremo. O que há na verdade de permanente nisso tudo é uma animosidade de amplos setores democráticos contra as Forças Armadas e uma animosidade de amplos setores das Forças Armadas, contra correntes democráticas, principalmente de esquerda. Esse é que é o verdadeiro problema e eu não vou buscar lenha para alimentar essa fogueira. Eu vou procurar reduzir o coeficiente de atrito e de desconfiança entre as Forças Armadas e os setores progressistas porque é disso que o Brasil precisa. Não sou a mulher de Ló, não vou virar estátua de sal, olhando para trás. Acho mais construtivo proteger os inocentes do que procurar culpados.

JD – O senhor fez parte do principal projeto do Instituto Villas Bôas, que é a publicação de 200 livros de “pensadores” brasileiros. O senhor ainda está nesse projeto? Se, sim, como foram escolhidos esses nomes? São todos de viés de direita? Caso sejam, como o senhor se vê divulgando pensamentos, teoricamente, opostos aos seus?

AR – Participei do lançamento do Instituto e fui conferencista de uma mesa sobre o Projeto Nacional Brasileiro. O Instituto é um centro de pensamento sobre o Brasil, mas trabalha com soluções e tecnologias assistivas para portadores de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). Sugeri a publicação de uma bibliografia sobre a Amazônia com uma lista de autores que julgo importantes. Da lista constam autores clássicos da coleção Brasiliana e autores de todos os espectros ideológicos, e me sinto muito bem divulgando ideias plurais sobre o passado, o presente e o futuro do Brasil.

JD – O senhor se sentiu incomodado com a repercussão do livro do general Villas Bôas?

AR – Não. O general Villas Bôas é um patriota, mas como todos os homens, não está livre de enganos que conduzem aos juízos errados sobre os acontecimentos. O livro dele tem coisas muito certas, mas acho que está se dando um destaque muito grande aos erros que ele possa ter cometido.

JD – Como nasceu a relação de confiança e amizade entre vocês? Quais os pontos de contato?

AR – Como já respondi, nasceu da identidade de pensamento sobre o Brasil e do trabalho comum, eu na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional e ele na assessoria parlamentar do Exército.

JD – Como recebeu a atitude do general de vir a público repisar que, não só fez o golpe, como teve apoio de todo o comando, além de demonstrar ânimo para seguir na mesma direção?

AR – O general não fez o golpe e quando publicou o inditoso tuíte sobre o presidente Lula quem estava no governo era o presidente Michel Temer. Conhecedor das circunstâncias que cercaram o comando do general Villas Bôas vejo com mais clareza a frase de Ortega Y Gasset: “O homem é o homem e suas circunstância”, e assim posso ter um olhar de maior compreensão para aquele momento infeliz de nossa história.

JD – Como vê a interferência dos militares na vida política do país? Como fazê-los retornar aos quartéis e cuidar apenas da defesa, função primordial das Forças Armadas?

AR – Os militares não estão interferindo na política. Sei que os oficiais da reserva que participam do governo transferem para a instituição parte do desgaste dos erros da administração federal. Mas quer saber de uma coisa? Se o governo é ruim seria muito pior sem esses militares. É sabido que em casos como na relação com a Venezuela e a Argentina, com a China, ou em problemas como o da Amazônia, o vice-presidente Mourão e o general Fernando Azevedo ou o almirante Rocha têm cumprido um papel moderador e útil para o Brasil. É uma escolha difícil porque eu sempre digo que nos momentos de crise as Forças Armadas precisam ser parte da solução e não parte do problema.

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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