(Foto: Agência Brasil)

Bolsonaro cobra a conta dos últimos devedores

23 de novembro de 2022, 16:28

Bolsonaro empurrou muitos parceiros próximos e distantes para a missão suicida de propagarem o golpe, porque está cobrando contas.

Cobra do PL a conta por ter assegurado ao centrão a dinheirama secreta que financiou a eleição da maior bancada de direita e extrema direita do Congresso.

Cobra de empresários a conta por alguma proteção do governo a demandas nem sempre republicanas ou envolvendo crimes e ladroagens mesmo.

Cobra dos militares a conta que talvez seja a mais cara de todas, a dos 6 mil empregos a oficiais em troca da proteção e da tutela dos generais.

Os que insistiram em enviar recados e ameaças, incluindo pastores retardatários, mesmo depois do esgotamento do esforço pelo golpe, estavam mandando recibos a Bolsonaro: olha aqui o que estou fazendo por ti, mesmo que dê uma enorme confusão.

As intervenções tardias de João Augusto Nardes e do general Luiz Eduardo Ramos, para que o pessoal se mantivesse atento, podem ter sido muito mais gestos de quem ainda estava em dívida com o chefe e menos uma aposta em algum resultado.

Bolsonaro precisava ficar sabendo que eles fizeram o que deveria ser feito. Mas há uma dúvida que só Bolsonaro e os íntimos podem desfazer: quem se encolheu, na hora em que ele esperava ver o país em chamas?

Quantos teriam prometido ações diretas pelo golpe, como os empresários que financiaram as arruaças, e quantos dos que vieram até aqui como cúmplices do blefe ficaram quietos diante dos bloqueios nas estradas e dos acampamentos na frente dos quartéis?

Ele teve tempo para pensar no tamanho das traições e das omissões. Quando optou pela clausura, aconselhado pela turma do deixa-que-é-com-nóis, Bolsonaro fez o previsível.

Afastou-se do poder, para não ficar exposto a cobranças e barbeiragens, e passou a acompanhar tudo de longe. Mas não teve tudo o que esperava.

Seus emissários se encarregariam das mensagens com alertas e ameaças, enquanto a turma prática cuidaria na linha de frente dos banheiros químicos, das barracas e das bandeiras.

Não aconteceu o que ele e o general Braga Netto esperavam que acontecesse. O general recomendou que os patriotas mantivessem a fé. Outro general, Luiz Eduardo Ramos, citou Isaías e recomendou, como se fosse um pastor: “Não tema, pois estou contigo”.

Se tivesse dado certo, teria sido um golpe religioso, em que pela primeira vez generais se apegam a mensagens bíblicas para mobilizar suas bases.

Depois da auditoria subTabajara de Valdemar Costa Neto, o golpe nem meme é mais. Esgotou-se, por chatice, o ataque às urnas.   

Bolsonaro é desafiado a arranjar uma saída que não o deprecie junto aos seus e não o desmoralize como cobrador de contas.

Dependendo dos primeiros gestos de seus aliados depois da posse de Lula, da possível debandada em direção ao novo governo, do abandono de eleitos que nunca o enxergaram como líder e da situação dos militares sob novo comando, Bolsonaro não terá como cobrar contas de ninguém.

Quem pagou, pagou. Quem não pagou, não paga mais e vai cuidar da vida longe de um derrotado e de acampamentos de lunáticos. Um golpe fracassado é a pior de todas as contas políticas.

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Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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