Carlos Bolsonaro, acossado, busca a reeleição

18 de julho de 2020, 20:16

Carlos Bolsonaro desmentiu a si próprio. Vai concorrer mais uma vez ao cargo de vereador para a Câmara Municipal do Rio de janeiro, onde exerce o pleito desde o ano de 2000. Nos últimos dias, postou mensagens contraditórias. Sairia do país para morar no Texas, iria para Brasília, morar próximo ao pai e, por fim: anunciou que concorrerá mais uma vez, embora pela mídia, se saiba, ele acaba de comprar um apartamento na capital federal, no valor de R$ 470 mil. O imóvel, foi adquirido à vista e, de acordo com a Revista Crusoé, está registrado em nome da mãe, Rogéria Bolsonaro.

A disputa

O 02 – que ocupa a difícil posição de filho do meio, numa casa onde são considerados produção em série – fez história na Câmara do Rio. Não necessariamente por seu desempenho, mas por ter sido o vereador mais novo a assumir uma legislatura no país. Carlos concorreu aos 17 anos -, por ordem do pai -, que o emancipou para disputar com a própria mãe. Um fato, sem dúvida, marcante, para alguém recém-saído da adolescência, e ainda estudante do Ensino Médio. Daí não se estranhar que hoje, aos 32 anos, tenha oscilações emocionais do tipo: num dia anuncia a vontade de ir morar fora, no outro, comprar um apartamento em Brasília, e, no seguinte, anunciar que vai concorrer à reeleição ao cargo de vereador, pelo qual nunca demonstrou grande apreço.

Em 16 de outubro de 2018, o jornalista Vinícius Segalla, do portal Jornalistas Livres, descreveu assim, o drama da família:

“Para impedir a reeleição da ex-mulher, o deputado Jair Bolsonaro lançou a candidatura do filho de apenas 17 anos. Por ordens do presidenciável do PSL, o então estudante Carlos Bolsonaro precisou disputar com a própria mãe.

A guerra familiar patrocinada pelo capitão reformado ocorreu na eleição para a Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, no ano 2000. Na ocasião, Rogéria Bolsonaro, àquela altura já ex-mulher do presidenciável, tentava se eleger vereadora pela terceira vez. Ao contrário das outras duas disputas, em 2000 Rogéria já não contava com o apoio de Jair Bolsonaro. Classificando a ex-muher como “dona de casa”, Bolsonaro estava irritado com a postura da mulher como vereadora: “Nas questões polêmicas, ela deveria falar comigo para decidir o voto dela. Mas começou a frequentar o plenário e passou a ser influenciada pelos outros vereadores. Eu a elegi. Ela tinha que seguir minhas ideias. Acho que sempre fui muito paciente, mas ela não soube respeitar o poder e a liberdade que lhe dei”.

A solução do ex-capitão para destruir Rogéria foi lançar outro candidato à Câmara Municipal. Seu nome: Carlos Bolsonaro, seu filho, então um adolescente de 17 anos.”

Quando tomou posse na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, naquele ano, para exercer o primeiro mandato, Carlos Bolsonaro ainda tinha cabelos, que eram louros, e um ar quase infantil. Nunca apresentou grandes projetos. Uma poda de árvore aqui, um recapeamento, ali, e ausência quase absoluta nas comissões temáticas. Nenhum discurso que marcasse sua atuação, exceto o feito aos berros, no 9º andar do corredor da casa, contra a colega de pleito, a vereadora do PSOL, Marielle Franco, que acabaria assassinada em 14 de março de 2018, juntamente com o seu motorista, Anderson Gomes. Em matéria de 31 de outubro de 2019, o site Uol relembra a discussão, ocorrida na tarde de 3 de maio de 2017, e reproduz o depoimento de um dos assessores da vereadora, presente neste dia.

Desde o ano de 2000 o seu trabalho como vereador foi marcado pela influência paterna. Basta verificar as menções honrosas e homenagens que prestou, usando das prerrogativas do cargo. De 27 moções de “congratulação” que ofereceu, todas foram concedidas a figuras ligada à área policial ou de segurança, tais como delegados, inspetores e oficiais de cartórios. Desse total, destinou apenas duas honrarias para mulheres, ambas inspetoras de polícia.

Relatório de frequência

Nesse período, ou seja, o tempo em que está na condição de vereador, pode-se observar um fato curioso. O estatuto da Câmara contém regras claras quanto à presença às sessões, devendo as faltas serem justificadas e abonadas. Carlos aparece na maioria dos relatórios de frequência com uma ou duas faltas durante todo o ano, (nenhuma abonada), embora todos nós o víssemos viajando em companhia do pai, nesta ou naquela época. Em setembro de 2018, por exemplo, quando todos o soubemos em Juiz de Fora, na fatídica caminhada pelo calçadão da Rua Halfeld, onde consta que o pai foi esfaqueado, o relatório diz que Carlos Bolsonaro teve “zero” faltas.

No ano de 2019, quando o pai tomou posse, todos assistimos a vídeos e postagens dele em Brasília, acompanhando a montagem de governo ou, depois da posse, fustigando o general Santos Cruz, na disputa pela Comunicação do governo. Ainda assim, o relatório registra apenas uma falta no mês de agosto, para o vereador, enquanto o colega de legislatura, Dr. Jairzinho, aparece com 11 faltas. Todas devidamente abonadas e registradas no relatório. Em 2020, o relatório de frequência para de registrar a movimentação dos vereadores no mês de março, sem nenhuma explicação para a interrupção e sem registrar nenhuma falta para Carlos Bolsonaro.

Pode-se perfeitamente entender o enfado do 02, ao enfrentar novamente uma campanha para um cargo que nunca escolheu. Pelo contrário, lhe foi imposto. Carlos, porém, não tem muita escolha. Embora os vereadores não possuam direito a foro privilegiado, (a Constituição do estado do Rio garante, mas uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) considerou que a extensão do foro para os vereadores era inconstitucional), estar em evidência -, mas na condição de “autoridade” -, lhe dá certas “regalias”.

Conforme já publicado aqui, no 247, 02 anda no alvo das investigações acerca de um esquema de “rachadinhas” e pela contratação, em seu gabinete, na Câmara, de funcionários fantasmas. A compra do apartamento veio após a quebra dos sigilos bancário e fiscal de quatro ex-assessores do parlamentar no âmbito do inquérito que apura a existência do esquema, no gabinete do irmão, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), quando este era deputado estadual pelo Rio.

Na semana passada, o Facebook derrubou 88 páginas de perfis bolsonaristas de sua plataforma, alegando que elas não possuíam a identidade dos seus administradores e, além disso, desinformavam os que acessassem os seus conteúdos, propositalmente. A decisão do Face atingiu um dos seus assessores, colocando Carlos muito próximo ao esquema conhecido como “gabinete do ódio”. Bolsonaro, o pai, tem um pacto com a Igreja Universal, que praticamente obriga os filhos, filiados ao Republicanos, a puxar votos para a legenda. Sob pena de comprometer as suas pretensões para 2022. Desta forma, o destino de Carlos segue atrelado ao do pai.

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *