Coronel presidirá Funarte, que um dia esteve sob a direção de Ferreira Gullar

14 de setembro de 2020, 17:19

A Fundação Nacional de Artes (Funarte) tem novo presidente. Ou seria comandante? O ministro-chefe da Casa Civil, o general Walter Braga Neto (é uma ironia em si, isto) fez constar do Diário Oficial da União, de hoje, 14/09, que Luciano da Silva Barbosa Querido (de quem?) já não ocupa mais a cadeira. Para o seu lugar, vai o mais que apropriado coronel do Exército Lamartine Barbosa Holanda – um misto de Lamartine Babo, Abelardo Barbosa e Sérgio Buarque de Holanda – eu não disse, que era muito de acordo?

Levando-se em conta que no setor cultural é onde estão aninhados o maior número de comunistas por metro quadrado, nada melhor que um coronel para colocar ordem na casa. Certo? Ainda mais que a instituição tem como missão promover e incentivar a produção, a prática, o desenvolvimento e a difusão das artes no país. Um perigo! Um verdadeiro reprodutor de tendências “maoístas” pelo país. Ou vocês nunca ouviram falar da revolução cultural chinesa?

Em matéria publicada no Jornal Valor, há a informação de que: “Holanda tem experiência em logística (Pazuello também. Evidente que isto o credencia), é especialista em planejamento de ação estratégica e já presidiu a Câmara de Comércio Brasil-Albânia/RJ”. Este ponto, vocês hão de convir, o coloca como suspeito. Imaginem no cargo alguém que manteve relações com um sistema fechado, uma nação comunista como a Albânia, que rompeu com a União Soviética porque achava seu governo de esquerda! Tão comunista que o nome da capital é “Tirana”. Ainda mais que durante anos eles foram “assim, ó” com a China. Sim. Ela mesmo. A china. Aí tem…

Há atenuantes. Vamos dar ao coronel o beneplácito da dúvida. O Sr. Holanda já fez curso de roteiro na Escola de Cinema de São Paulo – mas por que diabos em São Paulo? Seria amiguinho do Dória? – e, ainda conforme o Jornal Valor, “em agosto do ano passado, esteve na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, junto com o deputado estadual Castello Branco (PSL), o superintendente do órgão, Roberto Simões Barbeiro, e o assessor especial Rodrigo Morais. Deixa estar que “Rodrigo” é nome de “amigo da casa”. Não costuma oferecer perigo. Só quem tem autoridade para falar em impeachment na frente de Bolsonaro é o ministro Paulo Guedes. Rodrigo é do bem. E advinha o que o militar foi fazer na Cinemateca? Oferecer uma mostra de filmes militares, é claro.

Querido, o ex, era assessor de Carlos Bolsonaro. Foi ele quem entronizou o comunicólogo da família nas manhas das redes sociais. Depois, foi levado para a Funarte (não pelo que tinha em mente, mas pelos arquivos armazenados no seu HD). Transitava por todos os gabinetes da família. Chegou a confidenciar a interlocutores ter criado e administrado cerca de 10 mil grupos no Facebook e WhatsApp, usando perfis variados. E, como ensinou Maquiavel, esse tipo de gente é melhor ter por perto. Solução: foi nomeado diretor do Centro de Programas Integrados da Funarte, com salário de R$ 10.373. Daí por diante foi só alegria. Chegou ao topo, com R$ 16.944 no cargo de presidente. Mas bom mesmo vai ficar para o coronel. Somará este salário ao soldo e ainda poderá exercer o seu talento de roteirista para escrever uma história espetacular: sua passagem pela Funarte, que já foi presidida, quem diria, pelo grande poeta Ferreira Gullar de 1992 a 1995. Se vivo fosse, teria feito 90 anos. E talvez estivesse exclamando: tristes trópicos…

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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