Discurso de Lula renova esperanças e nos lembra de quando tínhamos presidente

10 de março de 2021, 20:41

Os brasileiros estavam com saudade de um pronunciamento digno de um presidente da República. E este veio nessa quarta-feira (10), não por um presidente efetivo, no cargo. Mas por um ex-presidente, que assumiu as rédeas dos problemas e da esperança da Nação. Em minutos de discurso, Luiz Inácio Lula da Silva falou ao País no dia seguinte à decisão do ministro Edson Fachin de suspender todas as condenações atribuídas ao ex-presidente no âmbito da Operação Lava-Jato.

Com a decisão de Fachin, Lula volta a ser elegível e os adeptos do “mito” entram numa fase de desespero. O potencial candidato do PT volta à condição que detinha em 2018, quando a operação jurídico-policial tocada pela famigerada “República de Curitiba” e comandada pelo ex-juiz Sérgio Moro, coautor da trama que tirou Lula da disputa presidencial. Tal ação foi, como se sabe, decisiva na eleição do candidato do PSL que, eleito, nomeou Moro ministro da Justiça. Esta é razão, mais que plausível, para que, agora, o ex-juiz seja acusado de suspeição e tenha sua situação cada vez mais delicada.

Em seu discurso dessa quarta, Lula deu um show. Falou como um estadista, dominando cada um dos problemas analisados, desmascarando os seus algozes e desnudando os ocupantes atuais do “trono”. Foi ponderado e respeitoso, porém firme e duro na abordagem do buraco que o Brasil se meteu graças ao voto dos que achavam que tirando ele (Lula) do páreo, acabariam com a corrupção. Lula, além de tudo, fez o que o atual presidente nunca fez: dar ao tema da pandemia a abordagem lúcida, séria e responsável, com a qual dificilmente o Brasil estaria no caos que se encontra.

O efeito foi imediato. A primeira demonstração do alerta que tomou conta do Planalto foi o inesperado (pela forma e pelo conteúdo) anúncio feito pelo presidente da República de que o governo passa a facilitar a compra de vacinas, a partir de agora. Surpreendentemente de máscara, que abomina e combate, o presidente “fanfarrão” (termo usado por Lula, no discurso, e que ameaça pegar) mentiu ao tentar negar a defesa do chamado tratamento precoce para a Covid-19, através de remédios para o caso inúteis, como cloroquina, ivermectina e quejandos, tudo que ele pregou com afã. Chegou a pronunciar, sem corar, que a “nossa arma é a vacina”, o que deve ter, no entanto, doído, lá no fundo.

O “mito” sabe que o estrago político dos acontecimentos da semana é incomensurável. E, pelo seu poder de produzir reações violentas e despropositadas, e do batalhão de adeptos igualmente irascíveis de que dispõe, só Deus sabe o que poderá vir por aí. Mas, Lula, pelo que vem mostrando, volta à luta disposto e renovado. E agora legalmente apto.

A reviravolta provocada pela decisão do ministro Fachin de anular todas as acusações da Lava-Jato contra Lula faz o Brasil entrar em um novo cenário político e devolve ao brasileiro a esperança de ver pelas costas o atual presidente da República e todo o seu governo militar. Mas, foram tantos os estragos provocados pela perseguição implacável movida por Moro, Deltan Dallagnol et caterva, que ficam algumas perguntas no ar.

E as sentenças fajutas, proferidas sem prova, mas com toda “convicção”?

E os powerpoints, peças pateticamente amadoras que seriam ridicularizadas em qualquer país onde a Justiça já quisesse ter agido?

E o impeachment de uma presidente, espetáculo deplorável e sem qualquer razão jurídica?

E a negativa cruel e injustificável de um juiz para Lula, já indevidamente preso, comparecer ao enterro do irmão?

E as ofensas canalhas que ele sofreu quando da morte do neto?

E a perda da esposa, difamada pós morte? Ou ainda se tem alguma dúvida quanto ao papel do processo, hoje reconhecidamente espúrio, no agravamento da saúde de Dona Marisa Letícia?

E os mais de 500 dias de cadeia, sem motivo, período infame iniciado às portas de uma eleição arrumada para tirar um favorito do páreo?

E a entrega do País a um tenente reformado do Exercito, enxotado pela instituição, e que hoje governa inadequadamente o Brasil, com mais de 11 mil militares nomeados para cargos civis, incluindo os principais quadros do primeiro escalão? Vivemos ou não em um regime militar?

E a peça fundamental para se entender o escárnio institucional organizado que foi a nomeação para ministro da Justiça do juiz responsável por todo esse cenário?

Quem pagará por isso?

Escrito por:

Jornalista e compositor, com passagem por veículos como o Jornal do Commercio (PE) e as sucursais de O Globo, Jornal do Brasil e Abril/Veja. Teve colunas no JC, onde foi editor de Política e Informática, além de Gerente Executivo do portal do Sistema JC. Foi comentarista político da TV Globo NE e correspondente da Rádio suíça Internacional no Recife. Pelo JC, ganhou 3 Prêmios Esso. Como publicitário e assessor, atuou em diversas campanhas políticas, desde 1982. Foi secretário municipal de Comunicação. Como escritor tem dois livros publicados: "Bodas de Frevo", com a trajetória do grupo musical Quinteto Violado; e "Onde Está Meu Filho?", em coautoria, com a saga da família de Fernando Santa Cruz, preso e desaparecido político desde 1973. Como compositor tem dois CDs autorais e possui gravações em outros 27 CDs, além de um acervo de mais de 360 canções com mais de 40 músicos parceiros.

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