Fuga de Weintraub reproduz velhas práticas. Só que agora, elas vêm à tona

23 de junho de 2020, 19:16

Engana-se quem exclamou diante das alterações de documentos oficiais feitas por este (findo)governo, tanto na data de demissão do ex-ministro Abraham Weintraub – trocada no Diário Oficial -, quanto na inclusão indevida da assinatura do ex-ministro Sergio Moro, sem a sua autorização, na demissão do chefe da PF, Alexandre Valeixo.Weintraub anunciou sua saída do ministério na quinta-feira, dia 18 de junho, mas sua exoneração só foi publicada 36 horas depois, no Diário Oficial da União, quando ele já estava nos EUA. Nesta terça-feira, o decreto, assinado por Bolsonaro foi reformulado e a data mudada para 19 de junho, sexta-feira.

A prática era o “normal” na ditadura (1964/1985). Não fosse assim, e os crimes de mortes e desaparecimentos da época teriam sido descobertos e investigados. Naquela época, a máquina estatal, pericial e policial funcionava como um monstro de muitos tentáculos, país a fora. O atual espanto, acompanhado da frase: “nunca vimos isto antes”, deveria vir com bula. Nela, contida a explicação: nunca viram por que a censura que o governo atual tentou impingir à imprensa para encobrir ou “minimizar” os números de contágios e mortes por coronavírus, ainda não se espraiou para os demais setores da máquina pública, como foi o caso daqueles tempos sombrios.

 Em momentos como este, é sempre didático e recomendável relembrar histórias como a do médico perito Valdecir Tagliari. Ele estava recém formado, em 1970, com 28 anos, quando foi trabalhar no hospital do Iaserj. Lá, incentivado por um colega, prestou concurso para o IML do Rio de Janeiro, num período em que a repressão comia solta à caça de “subversivos” pelas ruas da cidade. No final de 1971, foi chamado para ocupar o cargo e iniciou os trabalhos. A princípio, rotineiros. Na madrugada de 30 de março de 1972, no entanto, um fato marcou para sempre a sua carreira. Quatro corpos foram levados para serem examinados por ele e seu colega, o legista Eduardo Bruno. (O caso da morte de quatro guerrilheiros ficou conhecido como “Chacina de Quintino”, por ter se passado naquele bairro da Zona Norte).

“Eram jovens demais, bem vestidos, visivelmente classe média. Totalmente distinto dos corpos que costumávamos examinar até então. Além das características dos jovens, outro ponto que chamou a sua atenção foi o fato de estarem com marcas visíveis de tortura. Um deles apresentava esmagamento das mãos por armamento pesado “Como se tivessem sofrido golpes de coronha de fuzil. Não era coronha de revólver, que é mais leve. Era armamento pesado, porque houve esmagamento total das mãos e parte dos braços”, lembrou Tagliari. Também uma jovem tinha a base do crânio com afundamento, pelo mesmo método.

Hoje, aposentado e com 76 anos, alega não se lembrar de muita coisa, pelas dezenas de anos passados do episódio. “Mas marcou. Aquele dia foi totalmente diferente. Houve um visível nervosismo na equipe. O laudo que eu enviei para a direção, como de costume, eu o vi num microfilme, anos mais tarde, totalmente adulterado”, revolta-se.

A Lei da Anistia – um acordão entre os que apagaram as luzes dos porões, o PMDB de então e representantes de instituições da sociedade temerosos da volta do arbítrio, toparam ceder em pontos cruciais da lei que permitiu a volta dos exilados, ex-presos políticos. Um deles, incluir entre os anistiados, os ex-torturadores e perpetradores de atos de violação dos direitos humanos. Desta forma, o Brasil não puniu, não passou a limpo o país, que seguiu adiante com a sua máquina burocrática repleta de ex-torturadores, ex-arapongas, ex-burocratas das seções do terror.

Entre um cafezinho e outro as histórias e bravatas foram sendo repassadas aos mais jovens, formando um verdadeiro contingente de novos “repressores”. Tal como na “Retropia” de Zygmunt Bauman, esses jovens reacionários e conservadores tinham saudades da ditadura que não viveram. Um exemplo, o próprio Bolsonaro. Sim, a impunidade propiciou esta formação de novos arapongas, novos matadores e novos “falsificadores oficiais”. Como um gordo que fez regime e não mandou recortas as antigas roupas, o Brasil seguiu sem desmontar por completo o seu aparelho repressivo.

Agora que a imprensa resolveu apurar, e não apenas reprocessar e relatar processos vazados, como fazia na época da Lava-Jato, os fatos vêm à tona com a rapidez de uma estrela cadente, – como no samba de João Nogueira –, deixando a nu a evidência de que, sim, Weintraub contou com a cumplicidade de Bolsonaro em sua fuga. Sim, houve uma “providencial” espera até que o fugitivo estivesse em solo americano, em local seguro, como convém aos afeitos ao mundo das irregularidades, para publicar a sua “demissão”. E, com o sucesso da “operação” garantido, arredar de volta a data da demissão no DO, para o dia devido, sabido e divulgado.

Conforme publicou mais cedo, o 247, o subprocurador-geral do Tribunal de Contas da União (TCU) Lucas Furtado disse, nesta terça-feira (23), que a retificação feita pelo governo federal na data de exoneração do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub confirma a existência de fraude no ato. “Antes, era ilegal e parecia haver fraude. Agora, confirmou. Em uma questão tão sensível, não se pode falar em mero erro”, declarou Furtado em entrevista ao Estadão/Broadcast Político. Mas que diabos! Por que alguém deixou suspender a censura em 1978? Seria tão útil, agora! Deve estar pensando Bolsonaro. Se é que ele pensa…

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *