Profissionais de saúde com roupa de proteção prestam homenagem a colegas mortos pelo novo coronavírus em Manaus 27/04/2020 (Foto: REUTERS/Bruno Kelly)

Homenagem às pessoas falecidas em tempos de pandemia

18 de maio de 2020, 14:24

Com palavras de acolhimento e afeto, eles buscam realizar o “luto”. Grupo que se encontra no Youtube inclui as atrizes Julia Lemmertz, Cissa Guimarães e a Pastora Lusmarina, dentre outros18 de maio de 2020, 14:24 h Atualizado em 18 de maio de 2020, 14:40

Nesta segunda-feira, às 21h, um grupo que inclui as atrizes Julia Lemmertz, Cissa Guimarães e a Pastora Lusmarina, dentre outros que se apresentam como voluntários, têm encontro marcado no canal Resistente, no You Tube, para homenagear os que se foram em tempo de pandemia. Com palavras de acolhimento e afeto, eles buscam realizar o “luto”, uma etapa necessária da perda: a concretude da despedida. Neste encontro, são ditos textos, lidos versos e rememoram-se situações experimentadas pelos que estão sendo homenageados, a fim de conservar vivo o que de melhor deixaram por aqui. Para participar – sendo ou não familiar de alguém que nos deixou -, acesse o canal às 21h.

Cerimônia de Encantamento em respeito e homenagem às pessoas falecidas em tempo de pandemia

“O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas”

João Guimarães Rosa

Somos seres finitos, mas o espírito é eterno. Encantamento de um ser é quando ele se libertou desta passagem absurda e maravilhosa, partindo para o território do mistério. Quando buscamos os sentidos da existência há que ter compreensão da necessidade deste rito de passagem. Velar os mortos é fundamental para a sanidade mental das pessoas, famílias e sociedades. Cerimônias de luto estão entre as primeiras expressões simbólicas de nossa espécie, desde os tempos das cavernas. 

Mesmo em tempo de catástrofe, confinamento e tristeza, é necessário que cada pessoa, cada família e comunidade, tenha preservado o direito a uma despedida digna, a possibilidade de troca de afeto com os entes queridos em hospitalização, o luto coletivo, a troca de boas palavras sobre a pessoa que se foi. Mesmo que em forma virtual, por vídeo ou em salas de conversa. 

Foi o que buscamos realizar com a cerimônia mágica de Encantamento de nossos poetas, Aldir Blanc, Flávio Migliaccio e dona Neném da Portela. Uma atividade realizada a partir de encontro entre amigos, no calor do luto, feita de forma simples, sóbria, mas muito profunda. Desta cerimônia, percebendo o significado que ela teve para os que participaram e acompanharam pela internet, em um grupo de amigos e pessoas com ideais comuns, decidimos realizar novas cerimônias, todas as semanas, sempre às segundas feiras, 21:00h, pelo canal Resistentes, no You tube. 

Nos dois primeiros encontros participaram Osmar Prado, Paulo Betti, Luciana Sérvulo, Sérgio Mamberti, Tuna Dwek, Célio Turino, Benjamin Taubkin, Aurea Martins, Amir Haddad, Sapopemba, Itala Nandi, Leonardo Boff. São encontros em que estamos chamando amigos, artistas a declamarem uma poesia, contarem uma história, uma música, uma palavra de conforto, e uma cerimônia espiritual singela. Cada qual de sua casa, por transmissão remota, reverenciando as pessoas que partiram na semana anterior, tenham sido vitimadas pela Covid19 ou não. O que nos move é a homenagem, a reverência, o respeito à cultura e às artes, à alma brasileira, enfim. 

Uma cerimônia de afeto, de respeito à história das vidas ceifadas. E já se foram mais de 15.000! Para nós, cada vida importa, não são números ou estatística. Por isso as Cerimônias de Encantamento, realizadas com beleza e arte. Daí a escolha de nomes de expressão da cultura brasileira, mas não só, também vamos entremeando a cerimônia com a lembrança a pessoas comuns, igualmente importantes para aqueles que se acercaram delas. Há muito heroísmo e muita poesia a reverenciar, como das trabalhadoras e trabalhadores da saúde, gente generosa e responsável, em trabalho de pura entrega, ainda mais em tempos de peste. 

Em tempos sombrios, a beleza e a generosidade salvam, essas celebrações são para lembrar do bom legado daqueles que se foram, sejam pessoas próximas ou não. É a nossa forma de rebeldia, de afirmarmos que estamos conectados e que a dor do outro também é nossa. Que enfrentamos a morte e a solidão com a coragem e o amor. E que cada pessoa que partiu seguirá encantada, viva em nossa memória, em nossas buscas e sonhos. Não nos rendemos! 

As vítimas da peste não podem ser esquecidas em uma vala comum, por isso acendemos nossa vela pelo luto em homenagem a elas.

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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