A acadêmica Nélida Piñon na inauguração da biblioteca com seu nome, no Instituto Cervantes (Foto: Divulgação)

Instituto Cervantes inaugura a Biblioteca Nélida Piñon

22 de junho de 2022, 21:13

Homenagem de tal jeito formidável, que trouxe ao Rio de Janeiro, vindo de Brasília, o Embaixador Fernando Garcia Casas, da Espanha, e uma comitiva daquele país, incluindo entre outras personalidades o presidente dos 80 Institutos Cervantes de todo o mundo. 

Presentes, nossas mais importantes instituições literárias, a Academia Brasileira de Letras, a Carioca de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico, o Pen Clube, buquê farto de imortais das Letras, a começar por Domício Proença, que saudou a homenageada, imortal nos quatro cantos do mundo, escritora Nélida Piñon, brindada com biblioteca com seu nome, ocupando dois andares do Instituto Cervantes, em Botafogo, guardando todo o seu arquivo de livros, os escritos e os lidos (em torno de oito mil livros), desde a cartilha da primeira infância ao grego Homero, da adolescência, com suas “Ilíada” e “Odisséia”, às obras completas de Cervantes, romancista que ela classificou como seu “preferido”, na entrevista concedida depois ao embaixador. Ao presentear seus livros, ela doou o mapa de sua formação, suas influências,  a literatura que a formou escritora, mulher brasileira, que tem também a cidadania espanhola. Não por tê-la pedido – “seria uma ousadia”, me disse. A Espanha se ofertou a ela pelo amor sempre demonstrado ao país, à Galícia de seus ancestrais.

Obras aconchegadas em prateleiras brancas, algumas envidraçadas, os livros raros com direito a vitrine, fechadura e chave. Com a mesma delicadeza com que Nélida trata e cultiva suas predileções, foi montada, no corredor da entrada, uma galeria de fotos a partir de seus avós e pais. A mãe, vestida com andorinhas em revoada. Baby Nélida. A adolescente, com cabelos à Jeanne D’Arc. E pequena amostra da vida consagradora. A entrega do Lazo de Dama, de Isabel La Católica, outorgado pelo Rei Juan Carlos, de Espanha, até a foto com a pelerine de cetim azul claro, usada na solenidade do Honoris Causa, conferido pela Universidade de Santiago de Compostela a Nélida, primeira mulher em 503 anos a receber o título.

A mostra fotográfica é apenas um ‘amuse bouche’ na lauta coleção de títulos, prêmios, troféus, homenagens conferidos à escritora, publicada em mais de 30 países, 25 obras escritas, primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras. O vocabulário gastronômico harmoniza-se bem com a personalidade de Nélida, que, conforme lembrou o embaixador, gosta de receber em sua casa com prodigalidade, influência da herança galega, pois “em mesa farta, nunca falta”, citou García Casas. . 

Restrito grupo, 40 escolhidos com a pinça de seus afetos e das altas considerações. A primeira a chegar foi Fernanda Montenegro, com o rigor da atriz que jamais faltou ou se atrasou durante toda a carreira na cena. É amiga de Nélida de se falarem diariamente. Da ciência, Margareth Dalcomo. O intelectual do samba, Haroldo Costa, com Mary Marinho. Das artes plásticas, Gonçalo Ivo. Da museologia, Paulo Knaus. Da literatura, Sergio Fonta, Zuenir Ventura, Sergio Abranches, Ricardo Cravo Albim, Victorino Chermont de Miranda, Bia Corrêa do Lago, Claudio Aguiar. O diretor do Instituto Cervantes, Luís García Montero.

O escritor e acadêmico espanhol Antonio Maura, diretor do Cervantes, abriu a cerimônia, saudou Nélida e anunciou a apresentação da Jovem Camerata do RJ, com músicos talentosos das comunidades cariocas, que breve irão se apresentar na Espanha e desfrutar de bolsas de estudos concedidas pelo Instituto. Encerraram o recital com Carinhoso – o carinho era a tônica da reunião. Gonçalo Ivo me cochichou: “São esses que reconstruirão o Brasil”.

O embaixador Garcia Casas saudou também a presença de Fernanda Montenegro e discorreu sobre os laços que ligam seu país a Nélida Piñon, primeira escritora de língua não espanhola a merecer homenagem como aquela ali prestada. Juntei frases de seu discurso: “Nélida se vale do particular para escrever o universo. Escritora de altíssimos méritos, ela pensa o cotidiano, a condição humana, contribui para a construção maior da literatura brasileira. Escritora do Brasil e do mundo, no universo de Nélida a Espanha e o Brasil se irmanam. Uma das grandes escritoras universais contemporâneas, personalidade literária máxima da cultura da Galícia, de que é descendente. Nélida é fundamental. Lembro a emoção que senti ao ler seu “A República dos Sonhos”, o peso da imigração de Espanha no Brasil, obra em que analisava suas raízes do mundo universal. Os valores culturais que defendemos são muito bem encarnados por Nélida Piñon. O barco que trouxe sua família a esta “república dos sonhos” tem mais um prato aqui, no coração do Instituto Cervantes.”

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Escrito por:

Formação acadêmica: Conservatório Nacional de Teatro 1967-1969, Rio de Janeiro
Jornalista, atriz e diretora do Instituto Zuzu Angel/Casa Zuzu Angel - Museu da Moda. Manteve colunas diárias e semanais, de conteúdos variados (sociedade, comportamento, cultura, política), nos jornais Zero Hora (Porto Alegre), O Globo, Última Hora e Jornal do Brasil (Rio de Janeiro), onde também editou o Caderno H, semanal.
Programas de entrevistas nas TVs Educativa e Globo.
Programas nas rádios Carioca e Paradiso.
Colaborações e/ou colunas nas revistas Amiga, Cartaz, Vogue, Manchete, Status, entre outras publicações).
Atriz de Teatro, televisão e cinema, de 1965 a 1976
Curadoria de Exposições de Moda: Museu Nacional de Belas Artes, Museu Histórico Nacional, Itau Cultural, Paco Imperial, Casa Julieta de Serpa, Palacio do Itamaraty (Brasilia), Solar do sungai (Salvador).
Curadoria do I Salao do Leitor, Niterói

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