José Múcio (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Não se pede a cabeça de Múcio. Apenas um ajuste no discurso

5 de janeiro de 2023, 16:39

Ao mencionar o nome do ministro da Defesa, José Mucio, imediatamente o que se ouve são elogios ao seu estilo afável, de bom trato, conciliador e de paz. 

Todos sabemos o quanto era delicado o momento em que o seu nome foi apontado para a pasta como uma ponte entre o presidente então eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, e o meio militar, envolto em um vespeiro, onde era difícil enxergar quem estava nas fileiras bolsonaristas e quem acatava com respeito devido o resultado saído das urnas.

Fora dos quartéis reinavam imagens que não deixavam dúvidas: alguém ali estava conivente com um bando de fascistas que já resvalava para o terrorismo gestado na porta da unidade militar, conforme declarou à Polícia o Alan Diego Rodrigues, o autor do atentado frustrado, ao aeroporto internacional de Brasília e participante também da noite de terror, em 12 de dezembro, quando os “acampados” saíram pela capital ateando fogo em tudo o que viam pela frente.

É possível que o ministro, apreensivo em estabelecer diálogo com os comandos militares para cumprir bem sua missão, nem tenha percebido o tamanho do problema, que obrigou o ainda indicado ministro da Justiça, Flávio Dino, sair de seus cuidados para, às 23h30, convocar uma coletiva em que explicou todas as providências tomadas naquela noite. 

Àquela altura, o indicado Múcio examinava uma “agenda” elaborada no meio militar, estabelecendo algumas “sugestões” ao governo que chegava, em nome da boa convivência. Ao que se sabe, o ministro Mucio acatou a não reforma dos currículos escolares nas escolas militares, a não alteração do sistema de previdência diferenciado para a categoria dos militares e vários outros itens cuidadosamente costurados para que a categoria seguisse o princípio constitucional que diz serem eles servidores do Estado e não dos governos de ocasião.

É bom que se diga que o governo vitorioso nas urnas listou e procurou nomes dos que considerou viáveis para a função. Ouviu recusas ou encontrou particularidades e impedimentos à nomeação. José Mucio, que veio de longe, lá do PFL, passando pelo DEM, aportando, enfim, no PTB, trazia a seu favor além do rótulo positivo de apaziguador, uma passagem bem-sucedida pelo Tribunal de Contas da União (TCU), onde transitou entre civis e militares com tranquilidade e fidalguia. Ele também teve uma longa trajetória como deputado federal por Pernambuco, no total foram cinco mandatos, atuando, ainda, como secretário dos Transportes durante o governo Roberto Magalhães.

Lançado às manifestações das feras da ultradireita a fim de debelar as sandices pacíficas – como tentativas de falar com Ets – e os parrudos que portam armas nos acampamentos e viram carros de pernas para o ar, incendiando-os, (numa atitude nunca vista em Brasília), adoçou a voz e disse que mais cedo ou mais tarde haveria um esvaziamento natural das “manifestações pacíficas”.

Alegou que os manifestantes apenas expressam opinião – de forma contundente, eu diria, com botijões de gás e tochas de fogo às mãos – e que ele até tem parentes e amigos entre eles. Ao ser efetivado no cargo, fez declaração protocolar, em cima apenas do tolerável. Disse que tem a intenção de: “contribuir às missões da Marinha, do Exército, da Força Aérea e do Estado-Maior Conjunto”.

Evidente que não vamos aqui monitorar as amizades do ministro. Lamentamos que tenha de conviver em família com radicais de ultradireita. Não se trata de pedir que ele saia convocando a Polícia do Distrito Federal para distribuir bordoadas entre eles num confronto de consequências inimagináveis.

O que se aposta de um nome tão elogiado e considerado no meio político e que, louve-se, foi o único a aceitar colocar o guizo no pescoço do gato – indo em pessoa enfrentar as carrancas e resmungos militares -, é que não espere que esse lumpesinato branco, classe média e sustentado sabe-se lá por quem, se perpetue em tristes figuras pelas portas dos quartéis uma infinidade.

Longe do conjunto da militância progressista torcer por sua queda ou pedir a sua cabeça. A torcida é apenas para que afine o discurso ao falar com a mídia, evitando tamanha condescendência com os arruaceiros, e que use de sua influência para sugerir aos comandos militares a solicitação em seus estados de uma ação de desmonte das instalações que propiciam o mínimo de “conforto” dos ali acampados, forçando, assim, a saída deles, por falta de condições mínimas de permanência.

Sem o conforto das barricadas de linguiça, fogões industriais, vagas nos estacionamentos dos quartéis, barracas espaçosas, galões de água mineral, banheiros químicos e a permissão de que portem armas, talvez eles desistam, mesmo, como prevê o ministro. E, certamente, com mais brevidade do que deixá-los pura e simplesmente com todo esse aparato de camping, nas áreas militares. Tirem-lhes o mínimo de “conforto” e não ficarão sob o sol escaldante e as chuvas ocasionais, sem abrigo, sem comida e suas adoradas (e ameaçadoras) armas. Tente não os chamar de manifestantes, ministro. São terroristas e, a longo prazo, podem desgastá-lo.

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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