No aniversário de morte de Marighella, Cesar Augusto grita por Justiça e exibe o escárnio do Estado

4 de novembro de 2021, 20:21

Hoje, quando há 52 anos, o guerrilheiro Carlos Marighella foi morto numa emboscada na alameda Casa Branca, na capital paulista, onde foi metralhado apesar de estar desarmado, eis que sou jogada neste passado.

O relato que vocês lerão abaixo é para os fortes.

A indignação que brota dessas linhas é visceral, indignada, emocionada e amorosa. Sim, existiu amor em meio à luta armada. Muitos casais se formaram e foram separados à bala pela repressão.  

O sentimento no final é de horror. Ainda mais quando falo de um amigo querido de muitos anos, com quem cruzei na redação de O Globo e do Jornal do Brasil. Nunca mais nos perdemos de vista. Pela sua história, que eu nunca soube inteira. Pela minha história, de trafegar por esta estrada recolhendo fragmentos por onde tantos passaram. E onde tantos tombaram. Pelo jornalismo. Pela posição que assumimos diante da vida, enfim. Cesinha nunca me perdeu de vista. E eu nunca deixei de acompanhá-lo. Ele e sua companheira sempre foram aos lançamentos dos meus livros. Sempre estiveram por perto. Por toda esta cumplicidade, eu me junto ao seu grito por justiça e torno pública a sua dor. É disto que se trata. Dor. 

A dor dos que foram supliciados nas mãos daqueles que hoje dirigem um país para o caos. A dor de nos ver tão à mercê dos pragmatismos eleitoreiros, a dor de nos ver apáticos, ouvindo comentaristas falarem com naturalidade de “orçamentos secretos”, como quem fala da próxima medida a ser adotada por um ministro qualquer

Não é normal que tenhamos um “orçamento secreto”, elaborado pelos filhotes daqueles que torturaram, seviciaram, metralharam e desapareceram. Vamos parar de fingir que isto não importa! Vamos deixar de tratar disto como se falássemos de episódios de uma série de TV. Há nomes e sobrenomes envolvidos nisto. E se tivesse sido interrompido o vergonhoso processo de driblar a lei para acumular verbas sujas, a serem distribuídas para a compra de homens que deveriam estar no Congresso para defender os interesses do povo, não haveria a “PEC do calote”, porque não haveria calote. Haveria lisura. Procurem no mesmo andar do gabinete presidencial e lá estará o autor do “tratoraço”! Assim como aprenderam a torturar e a camuflar a história, esses senhores aprenderam também a elaborar falcatruas para serem chamadas naturalmente na TV de “orçamento secreto”.

Leiam abaixo como o Estado que violentou, matou e torturou debocha dos que hoje ainda trazem no corpo tatuadas as marcas dos dedos dos verdugos. Os sinais deste Estado que agiu com violência e agora nega, regateia. 

E sabem por que ainda estamos falando desse passado? Porque ele não foi devidamente explicado, esmiuçado e passado a limpo. Este passado entorna seu chorume no nosso presente. 

Não é só Bebianno que ronda o quarto do Palácio! São todos os que não puderam ser pranteados, recolhidos e sepultados com dignidade! É por isto que este passado não passa. Foi covardemente trancado no armário da história. Jogaram as chaves fora, mas sempre se pode chamar um chaveiro. Abra, Cesinha, a sua revolta para que todos saibam, mais uma vez por todas o que aconteceu na Barão de Mesquita, nº 425, uma unidade do Exército Brasileiro. Grite. O Estado pode dar-lhe as costas neste momento, mas nós nos uniremos solidários. (Segue abaixo o relato do ex-preso político e sua luta por Justiça).

À Comissão de Anistia

Interessado César Augusto Chaves Fernandes-p/Maria da Conceição Chaves Fernandes 

Recebi notificação da Comissão de Anistia, na data de ontem, 3 de novembro de 2021, relativa ao processo citado acima, no qual, conforme documentação oficial sobre o caso, é afirmado: Assim, por restar comprovado que apenas foi aplicada a legislação vigente, sem excessos, abusos ou qualquer ato ilícito pelo Estado, não há que se falar em perseguição de caráter político; e sim, investigação policial, sem qualquer possibilidade de enquadramento no instituto da anistia política, nos moldes da Lei nº 10.559/2002. 

Causa espanto que após a documentação juntada sobre o caso de minha ex-esposa esta comissão tenha o desplante de afirmar que não houve excessos ou abusos ou ato ilícito por parte do Estado. 

Quero crer que os atuais integrantes da Comissão afirmam que abuso sexual (nem falo de outras torturas físicas), com uso de cabos de vassouras e pênis sob espancamentos e puxões de cabelos, desfile e apalpadelas no corpo de nu de mulher, seja uma prática da legislação vigente sob o regime militar. 

É isso que devo depreender dessa resposta igualmente abusiva e desrespeitosa que me foi enviada? Ou devo entender que os atuais integrantes dessa Comissão consideram esses atos situações normais ainda hoje sob este governo? 

O documento afirma que falta documentação. Pergunto aos srs. e sras. que documentação resta anexar depois do que está relatado no livro Tortura Nunca Mais, no documento Brasil Nunca Mais, que teve o Cardeal Arcebispo de São Paulo D. Evaristo Arns como um dos seus incentivadores? 

Ou creem os senhores e senhoras que os agentes da repressão que praticavam estes atos repulsivos filmavam ou fotografavam suas selvagerias para álbuns de família? 

O que está relatado naqueles documentos anexados foi comprovado por testemunhas destes abusos relatados. E eu mesmo, para meu horror até hoje manifestado em pesadelos e memórias doloridas, fui testemunha do início destes abusos sexuais na viatura em que fomos conduzidos às dependências do DOI-Codi no quartel da Polícia do Exército, situado na rua Barão de Mesquita, no bairro Tijuca, Rio de Janeiro. Se assim preferirem, posso testemunhar perante os senhores estes fatos que tenho horror de lembrar, as agressões que começamos a sofrer dentro de casa, o cabelo raspado e a cabeça lambuzada de vermelho, o café da manhã servido com baratas na caneca em um dos quarteis da Vila Militar por onde passei como preso político. Ou ainda a simulação de fuzilamento de que fui vítima no trajeto entre o DOI-Codi e outro dos quartéis pelos quais passei. 

Se acreditam que a história como documentada não serve como testemunho para os integrantes desta Comissão, estou à disposição para dizer diante de vocês uma ínfima parte do que foi o horror da tortura impingida aos presos políticos sob a ditadura militar. 

Mas, por favor, não sejam cúmplices a ponto de afirmar que estes atos eram coerentes com a legislação em vigor na época. Tenho receio é que sejam admitidos sob a atual legislação e com a consideração desta comissão. 

Espero uma resposta desta entidade que ainda se nomeia de Comissão de Anistia. Esclareço que esta carta se tornará pública.  

César Augusto Chaves Fernandes 

04 de novembro de 2021 

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *