O caos e o golpe não são a mesma coisa

28 de julho de 2022, 20:50

O golpe imaginado por Bolsonaro não existirá sem o caos. Mas o Brasil pode enfrentar o caos sem que o golpe aconteça. É um resumo aparentemente grosseiro, mas é só o que se tem no momento.

Bolsonaro vai perdendo as condições para aplicar e segurar um golpe, mas ainda pode induzir homens, com ou sem guampas, a promoverem esculhambações com desfechos imprevisíveis.

O desafio a partir de agora para Bolsonaro é a calibragem do blefe e do que resta da sua força aparente para blefar.

Radicaliza mais um pouco ou não? Intensifica o ataque ao Supremo, aos bancos e aos empresários e fica com quem? Só com os tios do zap?

Para quem olha de perto, como aliado, ou de longe, apenas como observador, ampliam-se as dúvidas sobre sua capacidade de levar adiante qualquer gesto político que o mantenha vivo como candidato ou como golpista.

O golpe sempre foi uma ideia com um tronco precário e duas pernas cambaleantes. Agora, com as reações dos manifestos, fica sem pé e sem cabeça.

Estamos diante de algo estranho, porque nunca antes um golpe foi tão anunciado. Não se configura algo que experientes em golpes possam comparar com o que já aconteceu.

Não dá para imaginar outro general Olímpio Mourão dentro de um daqueles tanques fumacentos que desfilaram em Brasília na Operação Formosa, em agosto do ano passado.

Mas nenhum entendido é capaz de dizer o que poderemos ter. Hoje, só há uma certeza. Bolsonaro continua com o controle das engrenagens políticas que acionariam uma confusão.

Antes, durante ou depois da eleição, algo pode acontecer, sem que necessariamente leve ao golpe.

Um conjunto de ações violentas localizadas que desencadeariam desordem por toda parte e levariam os militares a caírem, não no golpe, mas na real.

Bolsonaro provoca a faísca, tios e milicianos se movimentam, algo grave acontece, o sujeito pede a intervenção dos fardados, em nome do artigo 142 da Constituição, os comandos se assustam e dizem que isso não é com eles e Bolsonaro fica dependurado nas oito estrelas de Braga Netto e Augusto Heleno.

Bolsonaro sabe que perdeu até o direito de contar com a omissão de uma elite sempre oportunista que o mantinha esperneando. E vê o chão ir sumindo à sua frente.

Não conta mais nem com a animação de auditório de Olavo de Carvalho. O gabinete do ódio não tem força. O genérico esforçado Allan dos Santos está foragido. O centrão só quer saquear o que resta.

A dúvida sobre o que sobra de apoio é o tormento do pai e dos filhos. O que será do 7 de setembro? Dá pra tentar repetir o que aconteceu no ano passado? É possível radicalizar?

Os grupos do zap passam a viver dias de sofrimento, porque a vitalidade e as convicções de Bolsonaro estão abaladas.

A pesquisa do Datafolha desta quinta-feira, que não mudou nada em relação ao levantamento de junho (47% de Lula contra 29% de Bolsonaro), congela a agonia da extrema direita.

É possível que logo depois do 7 de setembro fiquemos sabendo que o golpe de Bolsonaro sempre foi um golpe de estelionatário. Os generais caíram no golpe do tenente.

Bolsonaro logrou todo mundo, e os militares poderão se apresentar como vítimas do que ajudaram a fomentar.

Principalmente se tiverem que lidar com o caos e vacilarem, na hora da verdade, sobre o que fazer com o artigo 142.

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Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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