(Foto: Reuters)

O Chile e a esperança de todos nós

5 de julho de 2021, 14:33

Sou de uma geração em que a primeira grande esperança vinda do Chile foi a eleição, em 1970, de Salvador Allende. 

Eleger democraticamente o primeiro mandatário declaradamente socialista e marxista da América Latina pareceu, num continente coalhado de ditaduras mais – ou menos – sangrentas, uma porta aberta para mudanças estruturais em nossas comarcas.

Bem: deu no que deu. Armado por Washington e alentado pelos governos militares da região, com ênfase para o brasileiro, Allende morreu no golpe de 11 de setembro de 1973, encabeçado por Augusto Pinochet, que instalou a mais sanguinária das ditaduras chilenas e uma das mais criminosas da nossa América no século passado.

Além de milhares de mortos, sequestrados, torturados, exilados, a ditadura de Pinochet (regime, aliás, elogiado tanto por Jair Messias como pelo seu ministro da Economia, uma abjeção que atende pelo nome de Paulo Guedes, que foi funcionário dele), aqueles anos de horror deixaram um legado que vigora até hoje: uma Constituição.

Pois essa Constituição começou a ser enterrada no domingo, quatro de julho: foi oficialmente instalada uma convenção constitucional inovadora em todos os sentidos.

Ela terá nove meses – uma gravidez – para levar a um plebiscito popular o texto que será gestado.

E começa com duas inovações fundamentais. A primeira; é paritária, ou seja, tem 78 cavalheiros e 77 damas. E mais: tem 17 representantes de povos originários. É a primeira vez que as comunidades indígenas integram uma constituinte no Chile.

Para um povo que, conforme um belo livro de meu finado amigo Poli Délano, era tratado como “os ingleses da América Latina”, uma quase revolução. Além da questão paritária homens-mulheres, inclui os excluídos de sempre num país de desigualdades homéricas.

A presidente da Comissão que irá elaborar a nova Constituição é uma professora universitária de méritos reconhecidos e aplaudidos, chamada Elisa Loncón.

Mais que pelos seus títulos e sua carreira, a professora Loncón se destaca por um detalhe: ela é da comunidade indígena Mapuche, o mais populoso dos povos originários do mesmo Chile de Allende e do sanguinário Pinochet. E seu discurso inaugural foi dito primeiro no seu idioma, e depois repetido em castelhano. 

Para chegar à presidência da Comissão, ela contou não apenas com os votos dos indígenas, mas também da Frente Ampla de Esquerda, do Partido Comunista e dos chamados independentes, ou seja, dos progressistas não alinhados aos partidos convencionais.

A direita chilena do presidente Salvador Piñera, aquele que é admirado e elogiado por Jair Messias e trata de se afastar do brasileiro, bem que tentou neutralizar ou ao menos diminuir o impacto da formação da nova assembleia constituinte chilena. Em vão.

Há, é verdade, alta tensão na política chilena, a começar pela pouca participação eleitoral – uns 43%, ou seja, menos da metade dos aptos a votar – das constitucionais. 

Azar de quem, como aqui no Brasil, se absteve, votou em branco ou anulou o voto e ajudou a eleger Jair Messias.

Lá, ao contrário, quem fez isso ajudou a um avanço inédito na história do Chile. Ajudou a ressuscitar o sonho de Salvador Allende: um país justo, igualitário, que reconheça – e supere – suas desigualdades.

Foi aberto nesse domingo um período histórico: começam a ser definidos assuntos fundamentais para o Chile e que, segundo o resultado, servirão de exemplo para o resto das nossas comarcas latino-americanas.

Escrito por:

Eric Nepomuceno é jornalista e escritor

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