Personagens do golpe de 2016 voltam a assombrar 2022

13 de setembro de 2021, 18:20

Na véspera do segundo turno da eleição de 2018, subi de elevador com um entregador de pizza e puxei assunto, perguntando em quem ele votaria. “Em Bolsonaro, respondeu animado”. Sem surpresa, tentei demovê-lo, antevendo todos os percalços que se eleito o candidato nos causaria. Argumentei com alguns pontos, mas ele, sorriso no rosto, não se deixou abalar.

– Se ele pisar na bola a gente tira, não tiramos a Dilma? – devolveu.

– Sim. Tiramos. Mas é exatamente por isto que desta vez não vai ser fácil. Vão argumentar que não podemos trocar de presidente como quem troca de camisa. E você precisa se lembrar que o vice dele agora é um general. Estamos comprando um barulho -, eu respondi, sem nenhum efeito sobre aquele trabalhador, confiante no voto que daria e na facilidade em tirar o novo presidente do cargo, se nada desse certo.

Hoje, quando findamos uma das semanas mais trepidantes desde o impeachment da presidente Dilma Rousseff, eu não pude deixar de me lembrar dessa “viagem”, quando dividi o elevador e inquietações com o entregador convicto.

Pano rápido. Em São Paulo, onde Bolsonaro esbravejou contra o Supremo Tribunal Federal (STF), chamou o ministro Alexandre de Moraes, de Canalha e disse claramente que não mais acataria ordens daquela corte – a última instância decisória do país -, para cerca de 120 mil pessoas, o MBL, um dos principais organizadores das manifestações contra Dilma e seu governo, regeu um encontro fraco, tendo como pauta: “Fora Bolsonaro e Fora Lula”.

Lá estavam os mesmos personagens que há cinco anos se uniram para o impeachment, com sucesso. Nesse domingo (12/09), porém, a despeito dos pulinhos animados do governador, João Dória, fazendo tremelicar os seus peitinhos caídos, não houve a adesão esperada. Erraram no time, erraram na pauta. Erraram no discurso. A pretensão é pavimentar a tal “terceira via”, encontrando um candidato (Dória espera seja ele) para desbancar o que anunciaram na pauta: fora Bolsonaro e fora Lula, numa aliança manjada e eterna: elite, mais mercado financeiro, contra os progressistas e, agora, o fascismo, no momento, no poder.

Deu certo em 2016, quando o escriba Michel, de posse de sua pena, desnudou para o país a insatisfação para com uma presidente que, no seu dizer, o menosprezava e não reconhecia o seu valor. Buáaaa.

Para fazer valer as suas aptidões, atravessou oceano e foi, em março daquele ano, juntamente com o ministro Gilmar Mendes e o recém-derrotado à presidência, Aécio Neves e convidados, montar a “ponte para o futuro”- o seu, é bom que se diga -, em Lisboa, em um seminário/biombo a que deram o nome de: 4ª Seminário Luso-Brasileiro de Direito.

Pura desculpa para tramarem em terras portuguesas, o golpe. Sim, foi golpe, O Globo. Impeachment sem crime de responsabilidade provado – e pedaladas, conforme atestado pela perícia do Senado, não foram cometidas – recebe o nome de golpe. Ademais, já tinham sido praticadas por FHC sem que resultassem em impeachment.

O evento em Lisboa, originalmente de âmbito acadêmico, foi organizado pelo Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP) – que tem entre os seus fundadores o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes -, em parceria com a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. O tema não poderia ser mais atual: “Constituição e Crise: A Constituição no contexto das crises política e econômica”, que contou também com as presenças do ex-governador paulista José Serra, (PSDB) e o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf.

Mexe para cá, mexe para lá, a nossa história é feita de mais do mesmo. Quer seja nas pretensões, quer seja nos personagens, porque a motivação é uma só. Manter no comando do país, os “seus”. A burguesia, ela, sim, apta a lidar com o dinheiro, os costumes e a colocar a ralé no seu lugar. Em trens apertados, em ônibus lotados, desde que cheguem cedo para dar o café para a madame e façam funcionar as diversas repartições e máquinas, onde os salários – quando fixos – estão cada vez mais achatados.

Para refrescar a memória é bom lembrar que Michel e os ex-presidentes Fernando Henrique e José Sarney, também estiveram juntos, anunciando em meados de agosto a participação do triunvirato, somado ao ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, a participação num ciclo de debates intitulado “Um novo rumo para o Brasil”, com início em 15 de setembro. Seminário, enfim, panaceia para a disseminação de ideias com o intuito de reforçar candidaturas da direita.

Olha aí, sempre eles, discutindo o que cai melhor para a vida brasileira. A iniciativa aponta para uma convergência entre PSDB, MDB, DEM e Cidadania nas eleições presidenciais de 2022. A ideia em discussão nos quatro partidos organizadores da conferência é apresentar uma chapa única ao Palácio do Planalto, logo no início do ano.

Em maio, Jobim foi anfitrião de um almoço entre Fernando Henrique e o também ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Eles disputaram em campos divergentes as últimas sete eleições presidenciais. FHC chegou a dizer que, se o segundo turno de 2022 ficar entre Lula e o presidente Jair Bolsonaro, votará no petista. Durou pouco a promessa. Pode-se imaginar que ele foi lá conferir a quantas andava a disposição de Lula, depois da prisão de 580 dias, de submeter-se aos seus ditames. Deve ter se decepcionado por ter encontrado o mesmo Lula, disposto a defender as pautas em favor dos trabalhadores.

Neste caso, deu sinal verde para o Dória dançar na paulista ao som de palavras de ordem, novamente ao lado do MBL, enquanto entram em cena os mesmos personagens, que hora conspiram, hora servem de “bombeiros”, desde que sigam juntos em defesa do que mais prezam: poder e dinheiro.

Diante de um Bolsonaro sem saída para o tamanho da encrenca que arrumou (pensou poder contar com a imediata adesão das Forças Armadas, que se fizeram de mortas), nos atos de 7 de setembro, Michel acorreu emprestando o seu “talento” para cartinhas em horas fatais, Gilmar intermediou o socorro e defendeu que acreditem num Bolsonaro pacato, em recente entrevista. Enquanto isto, FHC coloca a sua turma puxando o cordão nas ruas, na esperança de que ele seja engrossado pelos que também querem o “Fora Bolsonaro”. Mas, claro, acrescentando um “Fora Lula”, a cada dia mais dentro, em alta nas pesquisas. De novo, esta espécie de “turma da Mônica”, a nos assombrar.

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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