Que venha 2021, com esperança de vida, a vacina, ou a força de um grito entalado em nossas gargantas: Fora Bolsonaro!

30 de dezembro de 2020, 21:01

Ao jornalista é dado trazer notícias, análises, opinião. Nem sempre pessoais. A não ser em excepcionalidades. Acho que é este o caso. O ano de 2020 foi excepcional, e embora tenhamos vivido isto juntos, cada um vê o quadro de um modo peculiar.

Começamos com escândalos, como a corrupção do filho mais velho de Bolsonaro, e assistindo a manobras jurídicas para livrá-lo do que não tem desculpa, nem nunca terá. Nos impactamos com atos violentos e inconstitucionais com palavras de ordem pelo fechamento do STF, tendo à frente o chefe do governo, numa alegoria grotesca, montado a cavalo, ameaçando atropelar as leis e dar um golpe com os militares, conforme revelação da Revista Piauí. Ainda bem, eles não toparam.

Fomos apresentados à reunião ministerial de 22 de abril, em que foi descortinado ao país o nível das figuras que compõem o ministério desse governo, que agrada a 35% do povão, e choca o restante, atordoado com o baixo nível e o descaso das atitudes do titular, para com a população. Nem vale a pena repetir aqui frases e expressões dele. Causariam engulhos de novo. Talvez recordar uma delas, a do ministro Paulo Guedes, dizendo que ajudaria às grandes empresas, mas não faria nada pelas médias e pequenas, como de fato não fez. O Programa Emergencial de Acesso ao Crédito (Peac), administrado pelo BNDES e dirigido ao setor, só faltava pedir a mãe dos empresários como garantia, o que represou a liberação de uma verba destinada a socorrê-los, mas chegou no fim da festa, quando muitos já haviam baixado as portas. E não pediam muito. Os empréstimos solicitados variavam de R$ 5 mil a R$ 10 milhões. Depois de meados do ano um ou outro conseguiu.

Este foi um segmento que votou em peso em Bolsonaro em 2018. Não obteve ajuda e continua inexplicavelmente lhe dando apoio. Entre junho e julho tiraram dos armários as camisetas amarelinhas e foram para as ruas fazer carreatas, exigindo os seus funcionários de volta ao trabalho, para gerar lucro nos negócios, desativados pelo isolamento social e a desatenção de Paulo Guedes. Ninguém pareceu se importar com isto. Continuaram como robotizados, a gritar “mito”.

Ao olhar para trás – e longe de mim fazer uma retrospectiva! Para que sofrer duas vezes, não é mesmo? – constatamos que vivemos algo próximo de uma bomba de Hiroshima. Lá, estima-se que dentro dos primeiros dois a quatro meses após os ataques atômicos, os efeitos agudos das explosões mataram entre 90 mil e 166 mil pessoas em Hiroshima e 60 mil e 80 mil em Nagasaki. Cerca de metade das mortes em cada cidade ocorreu no primeiro dia. Durante os meses seguintes, vários morreram por causa do efeito de queimaduras, envenenamento radioativo e outras lesões, agravadas pelos efeitos da radiação.

Esta é uma história bastante contada e havia sido, até então, uma das tragédias mais impressionantes do século XX. Até o dia 11 de março, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS), anunciou que o planeta havia sido infestado por um vírus gorduroso, invasivo, eficiente, rápido, a ponto de dizimar, no Brasil, até agora, perto de 200 mil pessoas. Uma cidade de porte médio. Foi como se tivéssemos, aqui, recebido uma bomba semelhante à catástrofe de Hiroshima e Nagasaki.

Seguimos em frente, enterrando em valas coletivas os nossos mortos, tão numerosos eram.  As imagens em Manaus causaram impacto. Em nós. Não nele, Bolsonaro, que continuou dando de ombros. Com o desfilar das mortes por Covid-19, morríamos por dentro todos os dias. Isolados, desolados, olhando o mundo pelas telas de TVs e das lives. Nada de abraço, nada de sorrisos, barrados pelas máscaras, imprescindíveis e negligenciadas.

Enquanto isto, a floresta amazônica perdia três estados do Rio de Janeiro, da sua mata original. No cerrado, também o desmatamento avançou, com aumento de 13%. Esturricado, o Pantanal produziu cenas que comoveram a todos, como a da onça pintada, com as patinhas queimadas e protegidas por curativos, algo inusitado em suas vidas em contato com a natureza.

Em um país que escorraçou uma mulher do poder, aos gritos de Dilma, vá tnc, o recado para os machistas foi claro. Se mulher não serve para cuidar do Brasil, não serve para gerenciar um país, também não serve para gerenciar a casa, os filhos, a relação, a carreira. Mulher não tem voz nem vez, foi o que ficou estabelecido com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Para o seu lugar, foi eleito um homofóbico, misógino que despreza o gênero feminino. A soma desses dois fatores elevou o feminicídio. De 2017 a 2019 houve alta de 25% desse tipo de ocorrência. E não me venham dizer que foi coincidência.

Como arremate, e disfarce para a sua incompetência, Bolsonaro fez a apologia à tortura, um crime inafiançável.

E, por fim, assistimos perplexos ele de férias na praia, sem se preocupar em comprar nenhuma das vacinas, que espera serem ofertadas em malas de representantes de laboratórios, como os que costumamos ver nos diversos consultórios médicos. O ministro Eduardo Pazuello, o craque em logística, nem sequer conseguiu providenciar seringas e agulhas, para o início de uma eventual imunização. Na primeira tentativa, obteve 3% do necessário. Um vexame.

O ano de 2020 foi de morte. Estamos ansiosos por virar a página. Que venha 2021, trazendo esperança de vida para a nossa população. Ou sob a forma de vacina, ou pela força de um grito que entalou em nossas gargantas: “Fora Bolsonaro!”

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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