Sítio que escondeu Queiroz usou churrasco com música alta como fachada, igual na ditadura

18 de junho de 2020, 15:20

Pode soar como ironia, mas quem montou a estratégia para “guardar” Fabrício Queiroz no sítio do advogado dos Bolsonaros, Frederick Wassef, em Atibaia, usou das mesmas técnicas dos guerrilheiros que resistiram à ditadura, para disfarçar a presença do “amigo” de Jair Bolsonaro e seu filho, Flávio, para quem o pai “emprestou” seu antigo funcionário.

De acordo com o que apurou  a coluna “Painel” do jornal Folha de São Paulo, “um vizinho do sítio do advogado Frederick Wassef em Atibaia, onde o ex-assessor e amigo do presidente Jair Bolsonaro, Fabrício Queiroz, foi preso na manhã desta quinta-feira (18), relatou ao Painel que música alta e aglomerações eram frequentes, nos últimos dias, na casa onde estava escondido Queiroz.

 “Durante a semana, eu sempre achei que ficasse apenas o caseiro, por conta de música em alto volume praticamente todos os dias -, disse o homem, que é consultor técnico e mora na vizinhança desde dezembro passado”.

Ele preferiu não se identificar por temer represálias.

“Em fins de semana costumava ter movimentação, churrasco, falatório alto, música alta. Mas eu sempre achei que era coisa de família, normal, sem suspeitas”.

Segundo conta, um de seus filhos viu um “homem careca” passear pelo quintal de Wassef mais de uma vez. “Hoje quando a gente descobriu tudo nas redes sociais e vimos as fotos do Queiroz, meu filho, que é pré-adolescente, disse que viu essa pessoa no terreno do vizinho várias vezes”, disse.”

De acordo com o delegado Osvaldo Nico Gonçalves, da Delegacia de Operações Policiais Estratégicas (DOPE), que conduziu a operação, Queiroz vivia no sítio há pelo menos um ano.

O mesmo expediente foi usado em 1970. No dia 7 de dezembro  daquele anos, um grupo da organização Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) em ação conjunta com a Aliança Libertadora Nacional (ALN), cercou o carro do embaixador da Suíça, no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, na Rua Conde de Baependi, em Laranjeiras, (ZS-Rio). Os guerrilheiros o levaram para um cativeiro próximo à Penha. Este foi o quarto e último sequestro executado pela resistência e é considerado o mais longo, tendo durado mais de um mês de negociações. Foi também o que conseguiu a liberação do maior número de presos pela ditadura. No dia 13 de janeiro daquele ano, 70 libertos seguiram de avião para o Chile, sendo recebidos com festa no aeroporto de Santiago.

 
O sequestro foi coordenado pelo ex-capitão do Exército Carlos Lamarca e executado por militantes da VPR/ALN. Antes de Bucher – que morreu na Itália, em 1992, aos 75 anos-, foram sequestrados um embaixador norte-americano, um cônsul japonês e um embaixador alemão.

Bucher ficou amigo dos sequestradores e quando foi prestar depoimento à polícia, disse que não poderia identificar os sequestradores, embora todos tenham abandonado o uso do capuz nos primeiros dos 40 dias do seu cativeiro.
Um cativeiro que teve momentos “sui generis”. Para manter a fachada de normalidade, os cinco guerrilheiros que mantinham Bucher preso organizaram uma festa de réveillon em que os vizinhos, sem saber, puderam dançar com o inimigo público número um do regime militar: Carlos Lamarca. Visto por um morador, Lamarca teve que mostrar a cara e chegou a jogar futebol na rua com a criançada.


Der acordo com o depoimento de Paulo Malhães, (tenente-coronel do Exérctio) e ex-integrante do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), órgão subordinado ao Exército, de inteligência e repressão do governo brasileiro durante o regime militar -, churrascos com música alta eram promovidos também na Casa da Morte, em Petrópolis (RJ). O local, conforme confirmado por ele, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, foi usado como centro avançado de tortura, pelo DOI-CODI. As festas eram para não levantar suspeitas sobre as reais atividades ocorridas na casa.

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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