A ousadia do Sergio Moro argentino

28 de fevereiro de 2021, 16:31

A grande imprensa antikirchnerista argentina faz lá o que a grande imprensa antilulista faz aqui com os delitos da Lava-Jato: esconde o escândalo envolvendo o Sergio Moro deles, o presidente da Câmara Federal de Revisão Penal, Gustavo Hornos.

Hornos (foto) foi denunciado publicamente por deputados peronistas como amigo e confidente de Mauricio Macri quando este era presidente. As notícias sobre ele só aparecem nos jornais de esquerda.

O juiz é na verdade mais poderoso do que Moro. A Câmara é um tribunal de instância superior, onde são decididas controvérsias antes do encaminhamento dos processos à decisão final da Corte Suprema.

Pois Hornos tratava de processos envolvendo inclusive Cristina Kirchner, caçada pelo Judiciário argentino há anos, e outros adversários de Macri.

Até mesmo processos em que a família mafiosa de Macri está envolvida passavam e passam pelo tribunal. Pois o juiz costumava frequentar a Casa Rosada.

Ele esteve não uma nem duas vezes na Casa Rosada, de 2015 a 2018. Esteve seis vezes. O que eles conversaram é o que o sistema de corregedoria da Justiça deve esclarecer.

Todos sabiam que o juiz era ligado à direita, mas não que tivesse a ousadia de visitar Macri, de quem é muito próximo, na sede do governo (há muitos outros Sergios Moros na Argentina).

Uma das visitas foi feita às vésperas de uma decisão num dos processos criados contra Cristina, encaminhado à Corte Suprema.

A soberba do juiz e de Macri era tanta que os encontros estavam registrados numa agenda da Casa Rosada, só agora descoberta por informantes de deputados de esquerda.

Outra diferença entre Hornos e Sergio Moro é que o justiceiro brasileiro não visitava os poderosos da direita. Pelo menos não se sabe nem de visitas de Moro a Michel Temer, o jaburu do golpe.

A outra diferença é que aqui Moro, o discreto, foi trabalhar, não para a direita, mas para a extrema direita no giverno. Na Argentina, o juiz amigão da máfia dos Macri pode ser cassado.

Aqui, Moro é prestador de serviços à empresa de consultoria internacional Alvarez & Marsal, que casualmente trabalha para a Odebrecht.

Mas Moro não está tranquilo. O ministro Bruno Dantas, do Tribunal de Contas da União, quer saber o que diz o contrato da Alvarez & Marsal com o ex-amigo de Bolsonaro.

Dantas pediu esta semana que a empresa esclareça logo se o contrato celebrado com o ex-juiz se trataria, na verdade, da compra de informações privilegiadas obtidas pelo então magistrado.

É grave. É o TCU envolvendo-se no esclarecimento da suspeita de que Moro levou para seus patrões informações da empresa que ele mesmo investigava.

A suspeita mais grave é esta: Moro pode ter contribuído deliberadamente para a quebra da Odebrecht, para depois beneficiar a consultoria com o que sabia a respeito da empreiteira.

Resumindo: Moro participou do esquema da Lava-Jato que acabou destruindo a Odebrecht, e agora está envolvido no plano de salvação da Odebrecht.

Era preciso quebrar a empreiteira, para que depois seus amigos consultores cobrassem para salvá-la.

https://www.blogdomoisesmendes.com.br/o-diabo-esta-de-olho-neles/

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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