A revanche dos militares

4 de junho de 2021, 09:36

Bolsonaro está ganhando de goleada. Mandou mais de 10 generais embora do governo, quase todos humilhados pelos filhos dele, e não aconteceu nada.

Empurrou o vice Hamilton Mourão para uma função subalterna e perigosa no Conselho da Amazônia, sob o comando de Ricardo Salles e seus grileiros, e não acontece nada.

Dispensou o ministro da Defesa e os comandantes das três armas, porque não toparam levar adiante o blefe do golpe, e não aconteceu nada.

Diz e repete que é comandante supremo das Forças Armadas e se refere ao “meu Exército”, para imposição de um poder militar de governo, e não de Estado, e não acontece nada.

Desmoralizou as Forças Armadas ao transformar um general intendente no pior ministro da Saúde que o país já teve, em meio a uma pandemia, e não aconteceu nada.

Manobrou, sem muito esforço, para que Eduardo Pazuello não fosse punido pelo seu chefe no Exército, e não vai acontecer nada.

Mas o cenário geral de aparente normalidade bastante anormal vai continuar assim, sem acontecer nada?

A mesma pergunta pode ter outra formulação e ficar assim: os comandantes militares, submetidos ao desgaste dos interesses da família, em algum momento darão o troco?

Sendo mais direto: Bolsonaro está preparado para enfrentar a reação militar à próxima tentativa de desmoralização das Forças Armadas?

É quase certo que haverá essa tentativa de seguir em frente e impor seus desejos e suas demandas aos militares. Em circunstâncias ainda inimagináveis, mas ele continuará tentando. É da lógica da engrenagem montada com seus generais subservientes.

Bolsonaro sabe que precisa aperfeiçoar seu comando absoluto sobre as Forças Armadas, mesmo que sem método e de forma errática. Só não deve cometer o erro de achar que pode tudo porque até agora está dando certo.

O Exército hoje está cada vez mais sob controle de Bolsonaro e menos dos seus comandantes. Mas militares são imprevisíveis, desde o golpe da proclamação da República.

Bolsonaro sabe que aluga o apoio do Centrão, por algum tempo impreciso, mas não o suporte político incondicional dos militares.

O ex-ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva deve saber de coisas que serviriam de alerta a Bolsonaro. Mas Azevedo e Silva foi descartado, e Bolsonaro é um sujeito refratário a alertas, pela incapacidade de percebê-los.

Alguma força pode estar se movendo sem que os radares de Bolsonaro percebam, ou alguém imagina que Bolsonaro tem na mão a maioria dos militares de alta patente, se nem partido com cabos eleitorais ele tem?

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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