O mundo bolsonarista dos gamers

19 de julho de 2021, 15:51

Há muito tempo anunciavam que os games poderiam ser a literatura do século 21, porque teriam cada vez mais histórias inventivas e complexas. Não sei, porque não conheço o mundo dos eletrônicos, se a previsão se confirmou.

Daniel Galera, um dos grandes autores brasileiros desse século (de literatura, não de games), escreveu algo nessa linha na coluna que mantinha no Estadão.

Pois leio agora a seguinte manchete da Folha de S. Paulo online, que parece apresentar um texto sobre uma distopia bem maluca:

“Bolsonaro perde apoio entre gamers,
uma de suas bases mais sólidas desde o início”

Nunca pensei que os gamers seriam tratados como um agrupamento social organizado e como uma base política sólida do bolsonarismo. E em manchete de jornal.

Os gamers podem estar substituindo, pela direita, até os estudantes organizados como grupo social relevante que militava pela esquerda?

O interessante é que hoje podemos ler uma manchete nessa linha, em que os gamers merecem em destaque no principal jornal do país por seu engajamento político, mas não lemos há muito tempo uma manchete sobre estudantes.

Temos dados genéricos sobre as preferências dos jovens (como temos das classes sociais) nas pesquisas do Datafolha sobre qualquer assunto.

Sabemos, por exemplo, que os jovens rejeitam Bolsonaro e preferem Lula, como em 2018 preferiam Haddad. Mas nunca se viu um destaque do tipo: jovens estão com Lula.

Muito menos um título em algum jornal que destaque os estudantes como categoria ainda organizada.

A imprensa trata dos jovens, mas não dos estudantes como grupo social. É como se jovens e estudantes tivessem virado agrupamentos diferentes.

Por quê? Porque a organização orgânica dos estudantes não existe mais com a força que teve dos anos 60 aos 80, pelos mais variados motivos. Começando pela rejeição às formas clássicas de organização política.

Os estudantes que se inventam em 68 como grupo social e político relevante duraram com esse perfil de engajamento, militância e ativismo organizado por no máximo duas décadas, não só no Brasil.

É uma realidade. As três manifestações recentes contra Bolsonaro foram marcadas pela forte presença de jovens, mas não com a identidade que os conectava ao movimento estudantil. As exceções são as exceções, como são os contingentes de estudantes organizados da UFRGS.

Mas são poucos. A organização estudantil que se chamava de secundarista (do ensino médio, da UGES gaúcha)) e universitária (da UNE nacional) não existe mais com a mesma potência.

A manchete sobre os gamers provoca essa surpresa e ao mesmo tempo oferece outro susto, pelo menos aos mais velhos e fora dessa realidade.

Descobrimos que os gamers não são uma categoria social dispersa, mas um grupo com identidade. Que na média eles são reacionários e que seus líderes têm ou tiveram fortes vínculos com o bolsonarismo. Pode ser um chute da Folha?

Renan, o filho 04 de Bolsonaro, tem ligações com líderes de gamers, porque eles também têm líderanças politizadas. O 04 ganha dinheiro como promotor de eventos nessa área.

Não vamos ser alarmistas, mas seria bom saber com quem nossos filhos e netos andam conversando, e não só sobre games.

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Saiu o Grifo, jornal de humor do Brasil editado em Porto Alegre pela Grafar, cooperativa de cartunistas. Vai rolando página por página, porque são 32 páginas. Link abaixo:

https://drive.google.com/file/d/1E91Hfw70cdM0xGZRmEKpXq7lzl0xUcGt/view?usp=drivesdk

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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