O que Pazuello ganha como isca de Bolsonaro?

25 de maio de 2021, 11:46

Bolsonaro sempre blefou com o golpe ao apostar em situações de conflito a partir das provocações de militantes fascistas. Até em Sara Winter ele apostou como alguém que poderia cutucar o Supremo e provocar reações, um impasse político e a ruptura.

Se a corda arrebentasse, como eles diziam, Bolsonaro acha que seria fortalecido como déspota e teria (na cabeça dele) o respaldo do Exército.

Bolsonaro apostou depois que o impasse com os governadores, por causa das medidas de contenção da pandemia, também poderia criar um clima de confronto e caos.

O sujeito desafiou Supremo, Congresso e o poder de governadores e prefeitos, certo de que em algum momento haveria uma faísca. Nada aconteceu.

Os três chefes militares e o ministro da Defesa decidiram cair fora porque o blefe já havia ido longe demais.

Pazuello é agora a isca para que Bolsonaro teste a fidelidade da sua nova turma nas Forças Armadas. Pazuello é usado para instigar o que resta de ordem. O general da cloroquina é o emissário da desordem.

É mais do que uma provocação à CPI, que seria induzida a tomar uma decisão drástica, prender Pazuello e criar a confusão. É uma provocação dirigida agora aos militares.

Bolsonaro está mandando o seguinte recado ao alto comando das três armas, com o respaldo de Braga Netto: Pazuello vai para o tudo ou nada, e vocês devem decidir se estão com ele e as minhas Forças Armadas ou com quem quer derrubar o governo.

Não há método, não há racionalidade, não há nada que possa configurar uma estratégia. Há um impulso desatinado nessa direção. É uma provocação, porque talvez não exista mesmo outra saída diante do cerco da CPI e do sentimento de fim de governo.

No meio disso tudo, uma dúvida com fundamento está sem resposta desde a saída de Pazuello da Saúde. O que ele deve a Bolsonaro a ponto de se submeter a algo que tem tudo para não dar certo?

Bolsonaro sabe de Pazuello o que ainda não sabemos? Porque fica difícil de entender o que Pazuello ganha sendo manobrado por Bolsonaro e pelos filhos dele.

Dizem que, se for para a reserva, o general pode ficar forte para arrasar como candidato a deputado federal em 2022. Até pode ser. Mas precisa correr tantos riscos?

Dizem também que Pazuello é um ressentido, porque não chegaria nunca mais à quarta estrela, mesmo que tenha sido prometida por uma manobra política de Bolsonaro (que o Exército rejeita).

Pazuello estaria pouco preocupado com a imagem do Exército, ou não faria o que faz há mais de ano.

Pazuello é um medíocre, sem o respeito dos colegas, e também um mistério, ou talvez seja mesmo apenas mais um simplório da extrema direita que fez carreira fardado.

UMA COMPOSIÇÃO
O comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, deu três dias para Pazuello dizer por escrito o que o levou a participar do desfile de motoqueiros ao lado de Bolsonaro no Rio.

Na CPI, o sujeito mentiu e saiu livre e solto. Para os comandantes, não terá como mentir.

O processo deve ser sigiloso. Mas todos nós deveríamos ter o direito de ler a composição de Pazuello sobre a ida ao Rio.

https://www.blogdomoisesmendes.com.br/os-extremistas-que-ameacam-a-ordem-a-disciplina-e-a-hierarquia/

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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